O uso da creatina na saúde
Evidências que vão além do desempenho esportivo

Instituto Arlindo Gusmão de Fontes (IAGF) – por Rafael Bombein (CREF 016866/SP) 07/09/2026

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A creatina ganhou popularidade no início da década de 1990, especialmente depois dos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992, quando seu uso por atletas recebeu grande atenção. Naquele mesmo ano, um estudo publicado na revista Clinical Science demonstrou que a suplementação oral era capaz de aumentar a quantidade de creatina armazenada nos músculos. A partir daí, ela passou a ser amplamente estudada por sua relação com a força e o desempenho em exercícios de curta duração e alta intensidade.

Durante mais de três décadas, as pesquisas deixaram de se concentrar apenas no desempenho esportivo. Atualmente, a creatina também é investigada por seus possíveis efeitos sobre a saúde muscular, o envelhecimento, a recuperação física e o funcionamento do cérebro. Isso ampliou o interesse pelo suplemento entre pessoas que não são atletas.

Uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2025 encontrou benefícios para a força e alguns aspectos da composição corporal de pessoas idosas quando a creatina foi associada à prática de exercícios. Na saúde do cérebro, uma revisão publicada em 2026 encontrou possíveis benefícios para a memória e a atenção de pessoas idosas, mas destacou que as evidências ainda são limitadas.

Esses resultados mostram que a creatina pode ter aplicações que vão além das academias. Entretanto, os benefícios não são iguais para todas as pessoas, algumas possibilidades ainda estão sendo estudadas e a segurança também depende da qualidade do produto e da maneira como ele é utilizado.

O QUE É A CREATINA

A creatina é um composto orgânico nitrogenado (substância formada naturalmente pelo organismo e que contém nitrogênio). Ela é produzida principalmente no fígado e nos rins a partir de três aminoácidos — arginina, glicina e metionina —, que participam da formação das proteínas e de outras funções do corpo.

Também é possível obter creatina pela alimentação, principalmente por meio de carnes e peixes. A quantidade fornecida pelos alimentos, entretanto, varia conforme os hábitos alimentares. Os suplementos apresentam uma forma concentrada da substância, sendo a creatina monohidratada a mais estudada cientificamente.

A maior parte da creatina do organismo fica armazenada nos músculos. Nesse local, uma parcela é transformada em fosfocreatina (reserva de energia que pode ser utilizada rapidamente pelas células). Esse sistema ajuda a recompor o trifosfato de adenosina — ATP (principal fonte imediata de energia das células) — durante atividades que exigem esforço rápido e intenso.

A creatina também está presente em outros tecidos que necessitam de energia, como o cérebro. Essa participação no fornecimento rápido de energia ajuda a explicar por que seus possíveis efeitos sobre diferentes aspectos da saúde continuam sendo pesquisados.

CREATINA E SAÚDE MUSCULAR

Os músculos são importantes não apenas para a prática esportiva, mas também para caminhar, subir escadas, trabalhar, manter o equilíbrio e realizar tarefas cotidianas. A creatina aumenta a disponibilidade de energia rápida para a contração muscular e pode ajudar a pessoa a realizar os exercícios com melhor desempenho.

Quando associada ao treinamento de força, a suplementação pode favorecer ganhos de força e de massa magra (parte do corpo formada principalmente por músculos, ossos, órgãos e água). Isso acontece porque a creatina pode contribuir para que o indivíduo realize o treinamento com maior qualidade e suporte melhor o esforço ao longo do tempo.

O suplemento, isoladamente, não substitui o estímulo produzido pelo exercício. Os resultados mais consistentes para a saúde muscular aparecem quando seu uso é acompanhado de treinamento adequado, alimentação equilibrada e recuperação suficiente.

Os efeitos também podem variar conforme idade, alimentação, condição de saúde e rotina de exercícios. Por isso, os resultados encontrados em atletas ou em um grupo específico não devem ser considerados iguais para todas as pessoas.

CREATINA E ENVELHECIMENTO SAUDÁVEL

Com o avanço da idade, pode ocorrer redução gradual da força e da massa muscular. Quando essa perda se torna acentuada e compromete a capacidade física, recebe o nome de sarcopenia (perda de força, massa e função muscular relacionada ao envelhecimento). Essa condição pode dificultar atividades diárias e aumentar o risco de quedas e perda de independência.

Estudos realizados com pessoas idosas indicam que a creatina, principalmente quando associada ao treinamento de força, pode contribuir para melhorar a força e preservar a massa muscular. Uma metanálise publicada em 2025, que reuniu 20 estudos e 1.093 participantes, encontrou melhora da força em pessoas idosas que combinaram suplementação e exercícios.

Segundo o Prof. Dr. Bruno Gualano, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), a suplementação, especialmente quando associada ao treinamento de força, pode favorecer ganhos de massa muscular e força em pessoas com perda ou comprometimento muscular. Essa possibilidade não elimina a importância da atividade física regular, que permanece como parte fundamental do cuidado.

A creatina não impede o envelhecimento nem substitui alimentação, exercício ou tratamento de saúde. Ela pode atuar como recurso complementar em situações selecionadas, de acordo com as características e as necessidades de cada pessoa.

CREATINA E SAÚDE DO CÉREBRO

O cérebro também utiliza creatina em seu sistema de fornecimento de energia. Por essa razão, pesquisadores investigam se a suplementação pode contribuir para funções cognitivas (capacidades como memória, atenção, raciocínio e aprendizagem), especialmente em situações nas quais o cérebro enfrenta maior demanda de energia.

Uma revisão sistemática publicada em 2026 analisou pesquisas sobre creatina e cognição em pessoas com 55 anos ou mais. Cinco dos seis estudos incluídos encontraram alguma relação positiva, principalmente com memória e atenção. Entretanto, apenas dois eram estudos de suplementação, e a qualidade metodológica variou.

Esses resultados indicam uma possibilidade, mas ainda não comprovam que a creatina previna demências ou trate alterações de memória. São necessários estudos clínicos maiores e de melhor qualidade para esclarecer quem poderia se beneficiar, qual quantidade seria adequada e por quanto tempo.

Portanto, os resultados são promissores, mas ainda estão sendo estudados.

NOVAS POSSIBILIDADES DO USO DA CREATINA

Além da saúde muscular e cerebral, a creatina vem sendo pesquisada como possível apoio em períodos de imobilização e reabilitação. Nessas situações, o objetivo seria reduzir a perda muscular ou colaborar com a recuperação da força quando a pessoa volta a se movimentar e a realizar exercícios.

Também existem estudos sobre possíveis aplicações em doenças neuromusculares (condições que afetam os nervos e os músculos), alterações no controle da glicose e algumas doenças crônicas. Os resultados, porém, não são uniformes e variam conforme a doença, a população estudada e a forma de suplementação.

Uma revisão sobre o uso da creatina na reabilitação médica encontrou resultados encorajadores em algumas condições, mas ressaltou que muitos estudos incluíram poucos participantes e utilizaram métodos diferentes. Isso dificulta estabelecer recomendações gerais.

Assim, essas possibilidades não devem ser interpretadas como tratamentos já comprovados. A creatina não substitui medicamentos, fisioterapia, atividade física ou outras medidas indicadas pelos profissionais responsáveis pelo acompanhamento.

SEGURANÇA E POSSÍVEIS EFEITOS ADVERSOS

A creatina monohidratada é um dos suplementos mais pesquisados. Uma análise publicada em 2025 reuniu informações de 685 estudos clínicos, com 12.839 participantes que receberam creatina, e não encontrou aumento geral de efeitos adversos em comparação com os grupos que receberam placebo (produto sem a substância estudada).

Algumas pessoas podem apresentar desconfortos digestivos, como sensação de estômago pesado, náusea ou diarreia, especialmente quando utilizam grandes quantidades de uma só vez. A tolerância pode variar de uma pessoa para outra.

Devido à maior quantidade de água dentro das células musculares, pode ser percebido um leve aumento do peso corporal. A intensidade dessa mudança depende de fatores como a quantidade utilizada, o tempo de uso e a resposta individual.

Embora os dados de segurança sejam tranquilizadores para adultos saudáveis nas condições estudadas, isso não significa ausência completa de riscos em todas as situações. Pessoas com doenças, gestantes, mulheres que amamentam e outros grupos com menor quantidade de pesquisas disponíveis necessitam de avaliação individual.

CREATINA E FUNCIONAMENTO DOS RINS

Uma preocupação comum é a possibilidade de a creatina prejudicar os rins. Parte dessa dúvida ocorre porque sua utilização pode aumentar discretamente a creatinina (substância medida no sangue para auxiliar na avaliação do funcionamento dos rins). Esse aumento isolado não significa necessariamente que exista uma lesão renal.

Uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2026 analisou estudos clínicos randomizados e encontrou pequeno aumento da creatinina, mas não identificou alterações significativas em outros indicadores, como a ureia e a taxa de filtração glomerular — TFG (estimativa da capacidade dos rins de filtrar o sangue).

Para adultos saudáveis, as evidências disponíveis não demonstram prejuízo relevante da função renal quando a creatina é utilizada nas condições estudadas. Entretanto, ainda são necessários estudos clínicos com duração superior a um ano para ampliar a avaliação de segurança renal em longo prazo.

Pessoas com doença renal, alterações anteriores nos exames ou condições que possam comprometer os rins precisam de avaliação médica. Também é importante informar o uso de creatina antes da realização de exames, pois a interpretação da creatinina pode exigir atenção a outros indicadores.

MITOS E VERDADES

Algumas alegações sobre a creatina se tornaram populares sem o mesmo apoio das pesquisas científicas. Não há comprovação de que a suplementação, nas condições estudadas, provoque câncer, calvície, desidratação ou aumento de cãibras. Isso não significa que qualquer quantidade ou produto possa ser utilizado indiscriminadamente.

Segundo o Prof. Dr. Hamilton Roschel, professor associado da Escola de Educação Física e Esporte da USP, e colaboradores, as evidências acumuladas não sustentam vários dos riscos frequentemente atribuídos à creatina. Em revisão publicada em 2025, os pesquisadores destacaram seu perfil geral de segurança, mas recomendaram cautela com a qualidade dos suplementos e com o uso por pessoas que já apresentam doenças renais.

Outro equívoco é acreditar que todas as apresentações de creatina ofereçam vantagens diferentes. A creatina monohidratada continua sendo a forma mais estudada, e não existem evidências consistentes de que outras apresentações sejam superiores.

Também não se trata de um suplemento destinado apenas a homens, atletas ou praticantes de musculação. As pesquisas incluem mulheres, pessoas idosas e alguns grupos clínicos, embora a indicação e os resultados possam variar.

REGULARIZAÇÃO E QUALIDADE DOS SUPLEMENTOS DE CREATINA

No Brasil, os suplementos alimentares devem utilizar ingredientes autorizados e atender às regras de composição, qualidade e rotulagem estabelecidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Atualmente, os suplementos devem ser notificados à Agência para serem comercializados.

Em 2025, a Anvisa divulgou a análise de 41 suplementos de creatina vendidos no país. Os teores de creatina estavam dentro do esperado, mas 40 produtos apresentavam algum erro ou incorreção no rótulo. Entre os problemas estavam informações não autorizadas, alegações capazes de induzir o consumidor ao erro e falhas na apresentação da tabela nutricional.

Antes da compra, é importante observar a identificação “suplemento alimentar”, a lista de ingredientes, a quantidade indicada por porção, as orientações de uso, o fabricante e o número de regularização. A situação do produto pode ser consultada no portal da Anvisa.

Promessas de prevenção, tratamento ou cura de doenças devem despertar atenção. Suplementos alimentares não são medicamentos e não podem ser anunciados como substitutos de tratamentos de saúde.

USO E RECOMENDAÇÕES

A creatina é um suplemento alimentar (produto destinado a complementar a alimentação), e seu uso costuma ser diário, pois seus efeitos dependem do aumento gradual de sua quantidade nos músculos e em outros tecidos. Para avaliar sua necessidade e orientar corretamente a suplementação, recomenda-se consultar um nutricionista, profissional de saúde com formação diretamente relacionada à alimentação e às necessidades nutricionais de cada pessoa. Ele pode analisar a alimentação, a rotina, os objetivos e o estado nutricional, além de definir a quantidade e a forma de uso do suplemento.

Caso a pessoa apresente alguma doença, alteração nos exames, utilize medicamentos continuamente ou necessite de investigação médica, também pode procurar um médico nutrólogo (médico especializado na relação entre nutrientes, metabolismo e saúde). Dependendo do caso, nutricionista e nutrólogo podem trabalhar de maneira complementar.

Segundo a Anvisa, o fato de um suplemento ser vendido sem receita não significa que seu uso seja livre de riscos. A Agência recomenda procurar a orientação de um profissional de saúde qualificado antes de iniciar a suplementação, pois o uso incorreto, as quantidades excessivas e a combinação com medicamentos ou outros suplementos podem provocar efeitos indesejados. Essa orientação também se aplica às pessoas que utilizam creatina por conta própria, seguindo recomendações encontradas nas redes sociais ou fornecidas por pessoas sem qualificação profissional.

ONDE BUSCAR ORIENTAÇÃO NUTRICIONAL

Quem deseja receber orientação sobre alimentação e uso de creatina pode procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS). A disponibilidade de nutricionista e a forma de encaminhamento variam conforme a organização da rede de cada município. A equipe da unidade poderá informar quais serviços estão disponíveis na região.

Brasil — Meu SUS Digital: permite localizar Unidades Básicas de Saúde e outros estabelecimentos do Sistema Único de Saúde (SUS).
Endereço eletrônico: https://meususdigital.saude.gov.br/

Cidade de São Paulo — Busca Saúde: informa a UBS de referência e as unidades mais próximas a partir do endereço indicado pelo usuário.
Endereço eletrônico: https://buscasaude.prefeitura.sp.gov.br/

Atendimento nutricional a distância — e-Nutricionista: ferramenta do Conselho Federal de Nutrição para pesquisar profissionais cadastrados para a realização de telenutrição (atendimento nutricional a distância).
Endereço eletrônico: https://enutricionista.cfn.org.br/application/enutri/index

CONCLUSÃO

A creatina tornou-se conhecida por sua relação com o desempenho físico e o aumento da força, mas as pesquisas mostram que suas possíveis aplicações vão além das academias. As evidências mais consistentes estão relacionadas à energia e à saúde muscular, principalmente quando a suplementação é associada ao treinamento de força.

Possíveis efeitos sobre o envelhecimento, a recuperação física e a saúde do cérebro ampliaram o interesse científico pelo suplemento. Entretanto, algumas dessas aplicações ainda precisam de estudos maiores e mais prolongados. Resultados promissores não devem ser apresentados como benefícios garantidos para todas as pessoas.

Embora seja vendida sem receita, a creatina não deve ser utilizada de maneira indiscriminada. Escolher um produto regularizado e receber orientação adequada são cuidados importantes para que a suplementação considere as necessidades e as condições de saúde de cada pessoa.

Conhecer o que já foi comprovado e o que ainda está em estudo permite tomar decisões mais seguras. A creatina pode ter lugar na saúde além do desempenho esportivo, mas seu uso responsável deve caminhar junto com alimentação equilibrada, atividade física e informação baseada em evidências científicas.

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