
Tuberculose.
Uma doença curável que ainda ameaça milhões de pessoas.
Instituto Arlindo Gusmão de Fontes (IAGF) – por Rafael Bombein (CREF 016866/SP) 20/07/2026
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A tuberculose acompanha a humanidade há milhares de anos e, durante muito tempo, foi conhecida como “tísica” ou “peste branca”. Um dos principais avanços ocorreu em 1882, quando o médico alemão Robert Koch identificou a bactéria responsável pela doença. Nas décadas seguintes, o desenvolvimento da vacina BCG e a descoberta de medicamentos capazes de combater essa bactéria transformaram sua prevenção e seu tratamento.
A doença é causada pela bactéria Mycobacterium tuberculosis, também chamada de bacilo de Koch. Ela atinge principalmente os pulmões, mas também pode afetar outras partes do corpo. Embora tenha prevenção, tratamento e cura, a tuberculose não pertence apenas ao passado: continua sendo transmitida e pode provocar complicações, principalmente quando o diagnóstico ocorre tarde ou o tratamento não é realizado corretamente.
No Brasil, mais de 84 mil casos novos foram registrados em 2025. Os dados mais recentes sobre mortalidade mostram que mais de 6 mil pessoas morreram em decorrência da doença em 2024. Esses números ajudam a compreender por que a tuberculose continua sendo considerada um importante problema de saúde pública, mesmo com diagnóstico e tratamento disponíveis gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
No estado de São Paulo, foram notificados mais de 20 mil casos novos e cerca de 1.300 mortes em 2024. Apesar desse cenário, é importante destacar que a tuberculose pode ser curada quando identificada e tratada adequadamente. Por isso, reconhecer os sinais da doença, procurar atendimento e seguir o tratamento até o final são medidas essenciais para proteger a pessoa doente e reduzir a transmissão.
TUBERCULOSE
A tuberculose é uma doença infecciosa causada pela bactéria Mycobacterium tuberculosis, também conhecida como bacilo de Koch. Embora seja uma doença grave, existem medidas de prevenção, exames para o diagnóstico e medicamentos capazes de levar à cura.
A bactéria geralmente entra no organismo pela respiração e chega aos pulmões. Nesse momento, o sistema de defesa tenta impedir sua multiplicação. Em algumas pessoas, a bactéria permanece controlada; em outras, consegue se multiplicar e provocar inflamações e lesões nos tecidos. Por isso, ter contato com a bactéria não significa necessariamente que a pessoa desenvolverá a doença.
A tuberculose pulmonar é a forma mais frequente e a principal responsável pela transmissão. Entretanto, a bactéria pode atingir outras partes do corpo, como gânglios, ossos, rins, intestino e as membranas que envolvem o cérebro. Essas manifestações são chamadas de tuberculose extrapulmonar, e seus sintomas podem variar de acordo com o órgão afetado.
Qualquer pessoa pode desenvolver tuberculose, embora algumas condições de saúde e de vida aumentem esse risco. A doença não é provocada pelo frio, pela falta de higiene ou por uma gripe mal curada. Quando o diagnóstico é realizado e o tratamento é seguido corretamente, a maioria das pessoas pode ser curada e retomar suas atividades normalmente.
TRANSMISSÃO
Uma pessoa com tuberculose ativa nos pulmões ou na laringe, região localizada na garganta, pode liberar partículas muito pequenas contendo a bactéria ao tossir, falar ou espirrar. Essas partículas ficam suspensas no ar e podem ser respiradas por outras pessoas que estejam no mesmo ambiente.
Segundo o Prof. Dr. Valdes Roberto Bollela, médico infectologista e professor associado da Divisão de Moléstias Infecciosas e Tropicais da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), em uma publicação técnica elaborada com colaboradores em 2017, a identificação precoce da tuberculose pulmonar e a adoção de medidas de proteção são essenciais para reduzir o risco de transmissão nos serviços de saúde. Em outros ambientes, o risco também é maior durante o contato próximo e frequente, principalmente em locais fechados e com pouca ventilação.
A tuberculose não é transmitida pelo compartilhamento de copos, pratos, talheres, roupas, lençóis ou outros objetos. Abraçar ou apertar as mãos também não transmite a doença. O risco não está no contato físico em si, mas na possibilidade de respirar o ar compartilhado com uma pessoa que esteja transmitindo a bactéria. Conhecer essas informações ajuda a evitar o medo, o afastamento desnecessário e a discriminação.
Quando o tratamento adequado é iniciado e seguido corretamente, a quantidade de bactérias eliminadas no ar costuma diminuir, reduzindo progressivamente o risco de transmissão. Esse período pode variar conforme a condição da pessoa, a forma da doença e sua resposta ao tratamento. Por isso, o paciente, seus familiares e as pessoas com quem mantém contato frequente devem seguir as orientações da equipe de saúde.
SINTOMAS
Os sintomas da tuberculose geralmente aparecem de forma gradual e podem ser confundidos com gripe, pneumonia ou outros problemas respiratórios. Na forma pulmonar, o sinal mais frequente é a tosse persistente, que pode ser seca ou acompanhada de catarro. De acordo com o Ministério da Saúde, toda pessoa com tosse durante três semanas ou mais deve ser investigada para tuberculose.
Outros sinais comuns incluem febre, principalmente no final do dia, suor durante a noite, cansaço, falta de apetite e perda de peso sem uma razão aparente. Algumas pessoas também podem apresentar dor no peito ou catarro com sangue. Esses sintomas não aparecem necessariamente juntos e sua intensidade pode variar.
Quando a tuberculose afeta outras partes do corpo, os sinais dependem do órgão atingido. Podem surgir, por exemplo, gânglios aumentados, dores nos ossos, dor de cabeça persistente ou alterações no funcionamento do órgão afetado. Crianças, pessoas idosas e pessoas com a imunidade enfraquecida podem apresentar manifestações menos características, o que pode dificultar o reconhecimento da doença.
A presença desses sintomas não confirma, por si só, o diagnóstico de tuberculose, pois outras doenças podem causar manifestações semelhantes. Entretanto, a avaliação não deve ser adiada, especialmente quando houve contato com alguém diagnosticado com a doença. Em caso de tosse com sangue, dificuldade para respirar ou piora intensa do estado de saúde, deve-se procurar atendimento imediatamente.
A DOENÇA
Depois do contato com a bactéria da tuberculose, o sistema de defesa de algumas pessoas consegue mantê-la controlada. A bactéria permanece no organismo, mas não provoca sintomas nem caracteriza a doença ativa. Os profissionais de saúde chamam essa condição de “infecção latente”; nesse contexto, a palavra “latente” significa que existe uma infecção, mas não há sinais da doença ativa.
Segundo o Dr. Satish Swain, médico infectologista do Departamento de Medicina do All India Institute of Medical Sciences (AIIMS), em Nova Délhi, Índia, em uma revisão publicada em 2024, a infecção latente pela bactéria da tuberculose é identificada pela resposta do sistema de defesa, sem manifestações clínicas da doença ativa. Em palavras mais simples, a pessoa teve contato com a bactéria, mas não está doente, não apresenta sintomas e não transmite a tuberculose.
Na tuberculose ativa, a bactéria consegue se multiplicar e passa a provocar sintomas e lesões no organismo. Essa mudança pode acontecer pouco tempo depois do contato ou anos mais tarde. Segundo o Dr. Satish e seus colaboradores, o risco de evolução é maior em crianças pequenas e em pessoas que apresentam alguma condição capaz de enfraquecer o sistema de defesa.
O Dr. Satish destaca ainda que é importante identificar e tratar a infecção nas pessoas que apresentam maior risco de adoecimento. Antes do tratamento preventivo, porém, é necessário verificar se não existe tuberculose ativa. A escolha dos medicamentos deve considerar fatores como idade, outras condições de saúde, risco de efeitos indesejados e possíveis interações com medicamentos já utilizados.
DIAGNÓSTICO
O diagnóstico da tuberculose começa com uma avaliação realizada por um profissional de saúde. Nessa etapa, são considerados os sintomas, sua duração, o histórico de saúde e a possibilidade de contato com alguém que tenha a doença. A presença de tosse, febre, suor noturno ou perda de peso pode levantar a suspeita, mas os sintomas sozinhos não confirmam o diagnóstico.
Nos casos de suspeita de tuberculose pulmonar, geralmente é solicitada uma amostra de escarro, popularmente chamado de catarro. O teste rápido molecular consegue identificar material genético da bactéria em pouco tempo e pode apontar resistência a um dos principais medicamentos utilizados no tratamento. Outros exames, como a baciloscopia e a cultura, também podem ser necessários.
A radiografia do tórax ajuda a identificar alterações nos pulmões, mas não deve ser utilizada isoladamente para confirmar a doença. Quando há suspeita de tuberculose em outras partes do corpo, podem ser solicitados exames de imagem ou a análise de materiais retirados do órgão afetado. Em crianças e pessoas com baixa imunidade, a investigação pode exigir cuidados específicos porque os sinais e os resultados dos exames nem sempre são característicos.
O diagnóstico precoce permite iniciar o tratamento mais rapidamente, reduz o risco de complicações e ajuda a interromper a transmissão. Os exames e o tratamento estão disponíveis gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Mesmo quando um primeiro resultado é negativo, a investigação poderá continuar se os sintomas e a avaliação médica mantiverem a suspeita de tuberculose.
TRATAMENTO
A tuberculose tem cura, mas o tratamento precisa ser realizado corretamente e até o final. Na maioria dos casos, são utilizados diferentes antibióticos durante pelo menos seis meses. A combinação dos medicamentos é necessária para eliminar as bactérias e reduzir o risco de que alguma delas sobreviva ao tratamento.
Nas primeiras semanas, a tosse, a febre e o cansaço costumam diminuir. Essa melhora, porém, não significa que todas as bactérias tenham sido eliminadas. Interromper os medicamentos porque os sintomas desapareceram pode fazer com que a doença retorne e dificultar a cura.
Segundo a Dra. Lucilaine Ferrazoli, doutora em Ciências na área de Microbiologia pela Universidade de São Paulo (USP), “quando o paciente recebe uma indicação e um acompanhamento, isso garante que o tratamento seja realmente efetivo”. Por isso, efeitos indesejados e dificuldades para tomar os medicamentos devem ser comunicados à equipe de saúde. O paciente não deve reduzir as doses, substituir os remédios ou interromper o tratamento por conta própria.
O uso irregular ou inadequado dos antibióticos pode favorecer a tuberculose resistente, na qual a bactéria deixa de responder a alguns medicamentos. Nesses casos, o tratamento pode se tornar mais complexo e exigir outras combinações de remédios. Para ajudar o paciente a concluir o tratamento, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece gratuitamente os medicamentos, o acompanhamento e estratégias de apoio adaptadas às necessidades de cada pessoa.
MAIOR RISCO DE ADOECIMENTO
Qualquer pessoa pode desenvolver tuberculose, mas o risco não é igual para todos. A possibilidade de adoecimento depende da intensidade do contato com a bactéria, das condições do ambiente e da capacidade do organismo de controlar a infecção.
Pessoas vivendo com HIV, diabetes, desnutrição ou outras condições que enfraquecem o sistema de defesa apresentam maior risco de desenvolver a doença. O mesmo cuidado é necessário com crianças pequenas, pessoas idosas, fumantes e pessoas que fazem uso prejudicial de bebidas alcoólicas. Alguns medicamentos que reduzem a ação do sistema de defesa também podem aumentar esse risco.
As condições sociais também exercem influência. Pessoas em situação de rua, privadas de liberdade, indígenas, imigrantes e profissionais de saúde expostos à bactéria podem estar mais vulneráveis. Ambientes fechados, pouco ventilados, com muitas pessoas e acesso limitado aos serviços de saúde favorecem a transmissão e dificultam o diagnóstico precoce.
Sem diagnóstico e tratamento, a tuberculose pode causar lesões nos pulmões ou atingir outras partes do corpo, incluindo ossos, rins e as membranas que envolvem o cérebro. As complicações podem ser mais graves nas pessoas com a imunidade enfraquecida. Por isso, quem pertence a um grupo de maior risco deve procurar avaliação médica ao apresentar sintomas ou após manter contato próximo com uma pessoa diagnosticada.
PREVENÇÃO
A prevenção da tuberculose começa com a identificação rápida das pessoas doentes e o início do tratamento adequado. À medida que os medicamentos reduzem a quantidade de bactérias eliminadas no ar, o risco de transmissão também diminui. Por isso, procurar atendimento diante de sintomas persistentes protege tanto o paciente quanto as pessoas ao seu redor.
Manter os ambientes ventilados e permitir a entrada de luz natural ajuda a dispersar as partículas que podem conter a bactéria. Ao tossir ou espirrar, recomenda-se cobrir a boca e o nariz com o antebraço ou com um lenço. O uso de máscara poderá ser indicado pela equipe de saúde em algumas situações.
Segundo o Ministério da Saúde, a vacina BCG deve ser aplicada preferencialmente ao nascer. Quando a criança não for vacinada nesse período, a aplicação ainda poderá ser realizada antes dos cinco anos. A vacina não impede todas as formas de tuberculose, mas protege principalmente contra as manifestações graves da doença na infância. Essa e outras recomendações para crianças, adolescentes, adultos, gestantes e idosos podem ser consultadas no Calendário Nacional de Vacinação.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que pessoas com maior risco de adoecimento, incluindo aquelas que mantiveram contato próximo com alguém diagnosticado, sejam avaliadas mesmo que não apresentem sintomas. Quando a bactéria é encontrada no organismo sem provocar a doença ativa, poderá ser indicado um tratamento preventivo. Se prescrito, esse tratamento também deverá ser seguido até o final.
ONDE BUSCAR AJUDA
Diante de sintomas ou após o contato próximo com uma pessoa diagnosticada, procure uma unidade de saúde para receber orientação e realizar os exames necessários. O diagnóstico e o tratamento da tuberculose são oferecidos gratuitamente pelo SUS. Os endereços eletrônicos abaixo apresentam informações oficiais e ajudam a localizar os serviços de saúde.
Ministério da Saúde — Tuberculose
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/t/tuberculose
Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo — Tuberculose
https://www.saude.sp.gov.br/ses/perfil/cidadao/temas-de-saude/tuberculose/
Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo — Busca Saúde
https://buscasaude.prefeitura.sp.gov.br/
CONCLUSÃO
A tuberculose não deve ser vista como uma doença do passado. Embora tenha tratamento e cura, ela continua provocando adoecimento e mortes que poderiam ser evitadas. O diagnóstico tardio, a dificuldade de acesso aos serviços de saúde e a interrupção dos medicamentos permitem que a doença avance e continue sendo transmitida.
Seu enfrentamento não depende somente da pessoa diagnosticada. Também exige serviços de saúde acessíveis, identificação dos contatos, vacinação das crianças, acompanhamento durante o tratamento e condições de vida que favoreçam a prevenção. Quando essas medidas funcionam em conjunto, diminuem as complicações e ajudam a interromper a transmissão.
Informação e acolhimento também fazem parte do cuidado. A pessoa com tuberculose não deve ser culpada ou discriminada, mas orientada e apoiada até a conclusão do tratamento. Reconhecer os sinais, procurar atendimento e seguir as recomendações da equipe de saúde são atitudes capazes de proteger o paciente, sua família e toda a comunidade.
REFERÊNCIAS
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- Jornal da USP. Instituto Adolfo Lutz e USP detectam primeiros casos de tuberculose extensivamente resistente no Brasil [Internet]. São Paulo: Universidade de São Paulo; 19 jun 2023 [atualizado 4 jan 2024; Disponível em: Jornal da USP.
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- Brasil. Ministério da Saúde. Calendário Nacional de Vacinação [Internet]. Brasília (DF): Ministério da Saúde; 2026. Disponível em: Ministério da Saúde.
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Tuberculose não é coisa do passado; Drauzio Varella; 10 de julho de 2026;
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PARA SABER MAIS
Instituto Adolfo Lutz e USP detectam primeiros casos de tuberculose extensivamente resistente no Brasil; jornal da Universidade de São Paulo, USP; 19 de junho de 2023;
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