Polifarmácia
Mais medicamentos exigem mais cuidado e acompanhamento

Instituto Arlindo Gusmão de Fontes (IAGF) – por Rafael Bombein (CREF 016866/SP) 24/08/2026

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Segundo o Ministério da Saúde, a polifarmácia é o uso regular de cinco ou mais medicamentos ao mesmo tempo. Essa contagem pode incluir produtos prescritos por diferentes profissionais e aqueles utilizados por conta própria. Chás, vitaminas, suplementos, fitoterápicos (produtos preparados com plantas medicinais) e outras preparações também devem ser informados à equipe de saúde, pois podem interferir na ação dos medicamentos.

Utilizar vários medicamentos não significa necessariamente que o tratamento esteja errado. Pessoas com diabetes, hipertensão, doenças cardíacas ou outras condições crônicas podem precisar de diferentes medicamentos. A preocupação surge quando algum produto deixa de ser necessário, é utilizado na dose ou no horário incorreto, repete a ação de outro medicamento ou provoca uma interação medicamentosa (quando uma substância modifica o efeito de outra).

Um estudo nacional publicado em 2025, com dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, identificou polifarmácia em aproximadamente uma de cada quatro pessoas idosas pesquisadas. Na cidade de São Paulo, uma pesquisa publicada em 2023 encontrou o uso de cinco ou mais medicamentos em 37% dos 400 idosos atendidos em uma Unidade Básica de Saúde entre 2017 e 2018. Esse resultado não representa toda a população paulista e não pode ser comparado diretamente ao estudo nacional, mas ajuda a demonstrar a importância do tema.

Em 2024, a Organização Mundial da Saúde (OMS) manteve a polifarmácia entre as áreas prioritárias do programa internacional Medicação sem Danos. Quanto maior o número de produtos utilizados, mais importante se torna revisar o tratamento e garantir que cada medicamento tenha uma finalidade clara. Essa revisão deve ser feita com a equipe de saúde: iniciar, substituir, reduzir ou interromper um medicamento por conta própria pode provocar complicações.

POLIFARMÁCIA

A polifarmácia, por si só, não representa um diagnóstico nem significa que ocorreu um erro no tratamento. O termo funciona como um sinal de atenção, pois, quanto maior o número de medicamentos utilizados, mais complexos se tornam os horários, as doses e o acompanhamento dos possíveis efeitos.

A avaliação não deve considerar apenas comprimidos. Também precisam ser informados medicamentos em gotas, xaropes, pomadas, injeções, inaladores e adesivos, além daqueles comprados sem receita. Vitaminas, suplementos, chás e produtos fitoterápicos não devem ser esquecidos. Mesmo quando parecem inofensivos ou “naturais”, eles podem alterar o efeito de um medicamento ou aumentar a possibilidade de reações indesejadas.

A polifarmácia pode surgir quando uma pessoa precisa tratar diferentes doenças crônicas ou passa a ser acompanhada por profissionais de várias especialidades. Também pode ocorrer após internações, atendimentos de urgência ou mudanças no tratamento, especialmente quando um novo medicamento é acrescentado sem que os anteriores sejam reavaliados.

Por isso, não basta contar quantos produtos estão sendo utilizados. É necessário verificar para que serve cada um, se continua indicado, se está produzindo o benefício esperado e se pode ser utilizado com segurança junto aos demais. Essa análise é chamada de revisão da farmacoterapia (avaliação organizada de todos os medicamentos utilizados pela pessoa).

QUANDO VÁRIOS MEDICAMENTOS SÃO NECESSÁRIOS

A necessidade de vários medicamentos é comum entre pessoas com multimorbidade (presença de duas ou mais doenças ou condições de saúde ao mesmo tempo). Um paciente pode precisar, por exemplo, de medicamentos diferentes para controlar a pressão arterial, o diabetes e uma doença cardíaca. Nessa situação, cada produto pode cumprir uma função específica e contribuir para prevenir sintomas, complicações ou internações.

A polifarmácia adequada ocorre quando todos os medicamentos possuem indicação definida, apresentam benefícios esperados e são utilizados em doses e horários apropriados. Também é necessário acompanhar os possíveis riscos e verificar se a pessoa consegue compreender e seguir o tratamento. Quando esses critérios são atendidos, os benefícios podem superar os riscos.

A escolha do tratamento deve considerar mais do que cada doença separadamente. Idade, funcionamento dos rins e do fígado, rotina, dificuldades para engolir ou lembrar os horários e objetivos pessoais também precisam ser avaliados.

Portanto, a quantidade de medicamentos não deve ser reduzida apenas para diminuir um número. Alguns são essenciais e sua interrupção pode provocar consequências graves. Ao mesmo tempo, o tratamento precisa ser revisto periodicamente para confirmar se continua necessário, eficaz e seguro.

PRINCIPAIS RISCOS

O uso de vários medicamentos pode aumentar a possibilidade de reações adversas (efeitos indesejados que aparecem mesmo quando o produto é utilizado corretamente) e de interações medicamentosas. Uma interação ocorre quando um medicamento modifica o efeito de outro, podendo reduzir o benefício esperado ou aumentar sua ação e sua toxicidade. Alimentos, bebidas alcoólicas, suplementos e produtos naturais também podem participar dessas interações.

Outro risco é a duplicidade terapêutica, situação em que dois produtos com a mesma substância ou com ações semelhantes são utilizados sem necessidade. Isso pode acontecer porque os medicamentos possuem nomes comerciais diferentes ou foram indicados por profissionais que não conheciam toda a lista utilizada pelo paciente. Horários muito complexos também favorecem esquecimentos, trocas e repetição de doses.

Algumas reações podem ser confundidas com uma nova doença. Tontura, sonolência, confusão, quedas, sangramentos e alterações da pressão ou da glicose podem estar relacionados ao tratamento. Quando outro medicamento é acrescentado apenas para controlar um efeito provocado pelo primeiro, sem que a causa seja reconhecida, pode ocorrer a chamada cascata de prescrição.

Segundo a equipe da Farmácia Universitária da Universidade de São Paulo (FARMUSP), coordenada pelas Profas. Dras. Samara Jamile Mendes e Patrícia Melo Aguiar, farmacêuticas e docentes da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, todo medicamento apresenta riscos e a avaliação deve considerar o paciente como um todo. Sintomas novos, principalmente após o início de um medicamento ou uma mudança de dose, devem ser comunicados ao médico ou farmacêutico. A suspeita de uma reação não significa que o tratamento deva ser interrompido por conta própria.

ATENÇÃO ESPECIAL ÀS PESSOAS IDOSAS

Com o envelhecimento, podem ocorrer mudanças na quantidade de água e gordura do corpo e no funcionamento dos rins e do fígado. Esses órgãos participam da transformação e da eliminação dos medicamentos. Quando seu funcionamento diminui, algumas substâncias podem permanecer por mais tempo no organismo, aumentando a possibilidade de efeitos indesejados. Essas alterações variam entre as pessoas e não acontecem da mesma forma em todos os idosos.

O organismo também pode ficar mais sensível a determinados medicamentos, especialmente aqueles que atuam no cérebro, na pressão arterial ou na glicose. Sonolência, tontura, confusão, redução excessiva da pressão, hipoglicemia (queda da glicose no sangue) e alterações do equilíbrio podem favorecer quedas e perda de autonomia.

Dificuldades de visão, audição, memória, leitura ou movimentação das mãos também podem interferir no tratamento. Embalagens parecidas, comprimidos com formatos semelhantes e horários muito próximos aumentam a possibilidade de trocas ou repetição de doses. A participação de familiares ou cuidadores pode ser necessária, mas deve respeitar a autonomia da pessoa idosa e as orientações da equipe de saúde.

Segundo Lincoln Marques, farmacêutico clínico e pesquisador da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FCFRP-USP), a avaliação do medicamento na pessoa idosa deve considerar não apenas possíveis interações, mas também reações adversas, função cognitiva e capacidade do organismo de processar a substância. O pesquisador destaca que um medicamento considerado potencialmente inadequado não é necessariamente proibido, mas exige justificativa, acompanhamento rigoroso e avaliação individual dos benefícios e dos riscos.

USO DE MEDICAMENTOS NO AMBIENTE DE TRABALHO

Os horários de trabalho, das refeições, dos deslocamentos e das pausas precisam ser considerados na organização do tratamento. Trabalhadores que iniciam a jornada muito cedo, atuam à noite ou possuem turnos variáveis podem encontrar maior dificuldade para manter os horários prescritos. Essas informações devem ser comunicadas ao médico ou farmacêutico para que o esquema seja ajustado à rotina sempre que houver uma alternativa segura.

O medicamento deve ser utilizado na dose e no horário orientados. Alguns precisam ser tomados com alimentos, enquanto outros devem ser ingeridos em jejum ou separados de determinados produtos. O trabalhador não deve antecipar, atrasar ou reunir doses para evitar o uso durante o expediente sem antes receber orientação. Em caso de esquecimento, também não se deve duplicar automaticamente a próxima dose.

Quando for necessário levar medicamentos ao trabalho, eles devem permanecer identificados e, sempre que possível, em suas embalagens originais. O armazenamento precisa seguir as orientações da embalagem ou da bula, em local seco, protegido do calor e separado de alimentos, produtos de limpeza e substâncias químicas. Medicamentos que exigem refrigeração necessitam de cuidados específicos.

Alguns medicamentos podem causar sonolência, tontura, dificuldade de atenção, visão alterada ou queda da glicose. Se sentir algum desses efeitos durante uma atividade que envolva trânsito, máquinas, altura ou objetos cortantes, o trabalhador deve se afastar da situação de risco e procurar orientação. Se a empresa tiver médico ou enfermeiro do trabalho, recomenda-se procurar esse profissional. Quando necessário, o supervisor também pode ser informado para que sejam seguidos os procedimentos de segurança adotados pela empresa. O medicamento não deve ser interrompido por conta própria.

AUTOMEDICAÇÃO

A automedicação ocorre quando uma pessoa utiliza um medicamento sem avaliação ou orientação adequada para aquele problema. Ela pode envolver produtos comprados sem receita, sobras de tratamentos anteriores ou medicamentos indicados por parentes e conhecidos. Na polifarmácia, acrescentar mais um produto por conta própria pode aumentar a possibilidade de interações, duplicidade de substâncias e reações adversas.

Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), medicamentos vendidos sem receita também apresentam contraindicações e efeitos adversos e não devem ser utilizados acima da dose ou por tempo maior do que o recomendado na bula. Anti-inflamatórios, antialérgicos e descongestionantes, por exemplo, podem causar reações ou interferir no tratamento de algumas pessoas. Medicamentos diferentes para gripe, dor ou febre também podem conter o mesmo princípio ativo (substância responsável pelo efeito), levando ao consumo de uma quantidade maior do que a recomendada.

O Ministério da Saúde orienta que chás, vitaminas, suplementos, fitoterápicos e outras preparações sejam informados à equipe responsável pelo tratamento. A origem natural não garante que um produto seja seguro. Também é importante informar o consumo de bebidas alcoólicas, pois o álcool pode intensificar a sonolência ou outras reações.

Antes de acrescentar qualquer produto ao tratamento, a pessoa deve consultar um farmacêutico ou o profissional responsável pelo acompanhamento. Quando um sintoma aparece com frequência, piora ou não melhora no período indicado, continuar utilizando medicamentos apenas para escondê-lo pode atrasar o diagnóstico de sua verdadeira causa. Medicamentos não devem ser compartilhados, mesmo quando outra pessoa apresenta sintomas semelhantes.

REVISÃO DO TRATAMENTO E DESPRESCRIÇÃO

A revisão da farmacoterapia é uma avaliação organizada de todos os medicamentos utilizados pela pessoa. O médico ou farmacêutico verifica a finalidade de cada produto, a dose, o horário, o tempo de uso, os benefícios observados e as possíveis reações ou interações. Exames, funcionamento dos rins e do fígado, dificuldades para seguir os horários e medicamentos adquiridos sem receita também precisam ser considerados.

Essa revisão é especialmente importante depois de uma internação, atendimento de urgência, consulta com um novo profissional ou mudança no estado de saúde. Nessas situações, deve ser feita a conciliação medicamentosa (comparação entre os produtos que a pessoa já utilizava e a nova prescrição). O objetivo é identificar medicamentos esquecidos, incluídos sem necessidade, repetidos ou apresentados com doses diferentes.

Quando um medicamento deixa de ser necessário, apresenta mais riscos do que benefícios ou não combina mais com os objetivos do tratamento, pode ser considerada a desprescrição. Esse é um processo planejado de redução da dose ou retirada do medicamento, realizado com acompanhamento profissional. Alguns produtos precisam ser diminuídos gradualmente, pois a interrupção repentina pode provocar sintomas de abstinência, piora da doença ou outras complicações.

De acordo com a equipe da Farmácia Universitária da Universidade de São Paulo, a revisão pode identificar reações adversas, dificuldades para seguir o tratamento, erros de dose e possíveis interações. As mudanças sugeridas pelo farmacêutico devem ser discutidas com o profissional responsável pela prescrição. O paciente também deve participar das decisões e compreender o motivo de cada alteração.

COMO UTILIZAR VÁRIOS MEDICAMENTOS COM SEGURANÇA

Mantenha uma lista atualizada com o nome de todos os medicamentos, a dose, o horário e a finalidade de cada um. Inclua produtos comprados sem receita, vitaminas, suplementos, chás e fitoterápicos. A lista pode ser feita em papel ou no celular e deve permanecer acessível a familiares ou cuidadores de confiança, principalmente em situações de urgência.

Leve essa relação, as receitas e os exames recentes a todas as consultas, mesmo quando o atendimento for realizado por outra especialidade. O médico, o cirurgião-dentista e o farmacêutico precisam conhecer o tratamento completo antes de indicar um novo produto. Após uma internação ou atendimento de emergência, compare a nova prescrição com os medicamentos que já eram utilizados e esclareça qualquer diferença.

Procure entender para que serve cada medicamento, como deve ser tomado e o que fazer em caso de esquecimento. Pergunte se ele precisa ser utilizado com alimentos, em jejum ou afastado de outro produto. Também é importante conhecer os principais sinais de alerta e saber com quem entrar em contato diante de uma reação.

Use os medicamentos nas doses e nos horários indicados e mantenha-os identificados, preferencialmente nas embalagens originais. Não utilize receitas antigas, não compartilhe medicamentos e não mude o tratamento por conta própria. Alarmes, tabelas e organizadores podem facilitar a rotina. Em caso de dúvida, procure um farmacêutico ou o profissional responsável pelo acompanhamento.

ONDE BUSCAR AJUDA

A revisão dos medicamentos pode começar em uma Unidade Básica de Saúde (UBS), com o médico ou o farmacêutico. É importante levar as receitas e uma lista completa dos medicamentos e demais produtos utilizados. Os serviços abaixo ajudam a localizar atendimento e obter orientações confiáveis:

Brasil — Meu SUS Digital
https://meususdigital.saude.gov.br/

Estado de São Paulo — Coordenadoria de Assistência Farmacêutica da Secretaria de Estado da Saúde
https://www.saude.sp.gov.br/ses/institucional/coordenadorias/coordenadoria-de-assistencia-farmaceutica-caf

Cidade de São Paulo — Busca Saúde
https://buscasaude.prefeitura.sp.gov.br/

Farmácia Universitária da Universidade de São Paulo — Serviço de Revisão da Farmacoterapia
https://jornal.usp.br/universidade/duvida-sobre-interacoes-medicamentosas-farmacia-universitaria-da-usp-faz-analise-gratuita/

CONCLUSÃO

A polifarmácia pode ser necessária e benéfica quando cada medicamento possui uma finalidade definida e o tratamento é acompanhado pelos profissionais de saúde. O problema não está apenas na quantidade, mas no uso de produtos desnecessários, repetidos, incompatíveis ou inadequados para as condições de saúde da pessoa.

Manter uma lista atualizada, informar todos os produtos utilizados e esclarecer as dúvidas com o médico ou farmacêutico são cuidados que ajudam a prevenir interações, reações adversas e erros de dose ou horário. Sintomas novos também devem ser comunicados, principalmente quando surgirem após o início de um medicamento ou uma mudança no tratamento.

A revisão periódica permite confirmar se cada medicamento continua necessário, eficaz e seguro. Quando a retirada for indicada, ela deve ocorrer de maneira planejada e acompanhada, pois alguns produtos precisam ter a dose reduzida gradualmente.

Utilizar medicamentos com segurança é uma responsabilidade compartilhada entre o paciente, seus familiares ou cuidadores e os profissionais de saúde. Nenhum medicamento deve ser iniciado, substituído ou interrompido por conta própria. O acompanhamento adequado ajuda a preservar os benefícios do tratamento e a reduzir riscos evitáveis.

REFERÊNCIAS

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O que é polifarmácia; Dra. Ana Escobar; 19 de agosto de 2023;