Canetas emagrecedoras.
Solução ou Pesadelo?

Instituto Arlindo Gusmão de Fontes (IAGF) – por Rafael Bombein (CREF 016866/SP) 19/01/2026

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O uso de medicamentos como Ozempic e Mounjaro para tratar obesidade e diabetes tipo 2 está crescendo rapidamente. Essas “canetas emagrecedoras” imitam moléculas naturais que regulam a glicose, mas seu consumo ultrapassou as indicações clínicas e ganhou relevância estética. Entender esse fenômeno exige uma abordagem transdisciplinar, considerando fatores psicológicos, comportamentais e sociopolíticos. 

Um artigo internacional publicado na revista Obesity, liderado pela Dra.  Fernanda Baeza Scagliusi, professora associada da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, USP, destaca que o estigma do peso e a percepção dos pesquisadores apontam para uma transformação não só biomédica, mas também sociocultural. 

Apesar de medicamentos para perda de peso serem atrativos, eles não substituem políticas públicas para mudanças nos sistemas alimentares. A Organização Mundial da Saúde, OMS, recomenda o uso dessas drogas no tratamento do diabetes tipo 2, mas ressalta que devem ser acompanhadas de alimentação saudável e atividade física. Muitos buscam esses remédios para emagrecer, deixando de lado outros fatores importantes. 

A pesquisadora acredita que o uso do medicamento está diretamente relacionado às normas corporais da sociedade, que defendem um padrão magro, “definido”, branco, sem estrias ou celulite. Estar dentro destes parâmetros garante vantagens sociais, é visto como sinal de disciplina, controle e investimento. Ou seja, carrega significados morais.

Os pesquisadores também destacam que a busca por esses tratamentos está apoiada em propagandas – seja por amplificação da mídia e celebridades, seja por promoções e vendas on-line. Neste aspecto, sublinham a importância de se entender o papel das redes sociais e da cultura digital em facilitar ou normalizar o uso.

No Brasil, a busca por esses medicamentos está fortemente associada a padrões de beleza atravessados por questões de raça, gênero e classe. Nos Estados Unidos, prevalece um discurso centrado na responsabilidade individual, produtividade e autocontrole. No Japão, a preocupação se aproxima mais da vigilância em saúde, enquanto na Dinamarca o consumo se insere em um contexto de maior confiança institucional e controle regulatório.

“É uma tendência mundial, mas não existe uma explicação única para ela. Cada país oferece pistas diferentes sobre como cultura, economia e saúde se entrelaçam nesse novo uso das canetas emagrecedoras”, conclui a Profa. Dra. Fernanda Scagliusi.

Segundo Dr. Bruno Gualano, coordenador do Centro de Medicina do Estilo de Vida (CMEV) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e coautor do artigo, “Há uma lacuna importante de conhecimento. Sabemos que esses medicamentos são eficazes para pessoas com obesidade, mas ainda faltam estudos que avaliem segurança, impacto psicológico e efeitos de longo prazo em indivíduos sem indicação clínica. Isso torna o uso estético especialmente preocupante”. 

Entre as incertezas, a pesquisa identificou possíveis alterações no comportamento alimentar, dependência emocional do medicamento, medo de recuperar peso e mudanças significativas na relação com o corpo e com a alimentação.