
DIA MUNDIAL DE COMBATE À POLIOMIELITE – 2026
Vacinação mantém o Brasil protegido contra a paralisia infantil
Instituto Arlindo Gusmão de Fontes (IAGF) – por Rafael Bombein (CREF 016866/SP) 26/10/2026
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Celebrado em 24 de outubro, o Dia Mundial de Combate à Poliomielite chama a atenção para uma doença que já provocou grandes epidemias e deixou milhares de pessoas com paralisia permanente. No Brasil, o último caso de poliomielite causado pelo vírus que circula naturalmente entre as pessoas foi registrado em 1989. Desde 1990, esse vírus, denominado poliovírus selvagem, não circula no país.
Entretanto, o poliovírus selvagem ainda existe em outras partes do mundo. Dados divulgados pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) mostram que, até 20 de outubro de 2026, foram registrados 48 casos, concentrados no Afeganistão e no Paquistão. Enquanto o vírus continuar circulando em algum país, poderá ser levado para outras regiões e alcançar comunidades com baixa vacinação.
O Brasil permanece sem casos causados pelo poliovírus selvagem, mas a cobertura vacinal ainda está abaixo da meta de 95% recomendada pelas autoridades de saúde. Em 2026, a média nacional estava próxima de 88%. No estado de São Paulo, a Secretaria de Estado da Saúde informou cobertura de 81,5% até julho de 2025, dado parcial mais recente divulgado especificamente para o estado.
A poliomielite não possui cura e pode causar paralisia permanente, dificuldades respiratórias e morte. A vacinação é a principal forma de proteção e precisa ser mantida mesmo quando a doença deixa de ser observada no país. Em 2026, o calendário brasileiro foi atualizado e passou a contar também com uma dose de reforço da vacina inativada poliomielite (VIP) aos 4 anos de idade.
POLIOMIELITE
A poliomielite, também conhecida como paralisia infantil, é uma doença infecciosa causada pelo poliovírus. Embora atinja principalmente crianças pequenas, pessoas de qualquer idade que não estejam protegidas pela vacinação podem ser infectadas.
Depois de entrar no organismo, o vírus se multiplica inicialmente na garganta e no intestino. Na maioria das pessoas, a infecção não provoca sintomas ou causa apenas manifestações leves, semelhantes às de outras viroses. Mesmo assim, uma pessoa sem sintomas pode eliminar o vírus nas fezes e transmiti-lo.
Em uma pequena parcela dos casos, o poliovírus alcança o sistema nervoso — conjunto responsável por transmitir os comandos do cérebro para o restante do corpo — e danifica as células que controlam os movimentos. Isso pode causar perda repentina da força e paralisia, geralmente mais intensa nas pernas e em apenas um dos lados do corpo.
Quando os músculos utilizados para respirar, falar ou engolir são atingidos, a doença pode colocar a vida em risco. Algumas pessoas que sobrevivem à forma paralítica permanecem com limitações de movimento e outras consequências por toda a vida.
TRANSMISSÃO
A principal forma de transmissão da poliomielite é a via fecal-oral. Isso acontece quando partículas microscópicas de fezes de uma pessoa infectada contaminam as mãos, a água, os alimentos, os utensílios ou as superfícies e, posteriormente, chegam à boca de outra pessoa.
O vírus também pode ser transmitido por secreções eliminadas pela boca ou pelo nariz, principalmente no início da infecção. Entretanto, essa é a forma menos frequente de transmissão relacionada à contaminação por fezes.
A falta de saneamento básico, o consumo de água sem tratamento, o preparo inadequado de alimentos e a higiene insuficiente das mãos facilitam a circulação do poliovírus. Crianças pequenas podem apresentar maior risco porque levam objetos e as próprias mãos à boca com frequência.
A transmissão pode ocorrer mesmo quando a pessoa infectada não apresenta sintomas. Por esse motivo, não é possível controlar a doença apenas identificando quem está doente. A vacinação, o saneamento e os cuidados de higiene precisam atuar em conjunto.
SINAIS E SINTOMAS
A maioria das pessoas infectadas pelo poliovírus não apresenta sintomas, o que permite que a infecção passe despercebida. Mesmo sem sinais da doença, a pessoa pode eliminar o vírus nas fezes e transmiti-lo. Quando surgem, as primeiras manifestações costumam se parecer com outras viroses.
Febre, mal-estar, cansaço, dor de cabeça, dor de garganta, náuseas, vômitos, diarreia ou prisão de ventre podem ocorrer. Algumas pessoas também apresentam dores musculares, rigidez no pescoço e desconforto nas costas ou nos membros. Essa é chamada de forma não paralítica, pois pode afetar o sistema nervoso sem provocar a perda dos movimentos.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente uma em cada 200 infecções pode evoluir para paralisia permanente. Nessa forma grave, ocorre perda repentina da força, geralmente acompanhada de febre. Os músculos ficam enfraquecidos ou “moles”, os movimentos e os reflexos diminuem e as pernas são atingidas com maior frequência. A capacidade de sentir toque, frio, calor e dor costuma permanecer preservada.
Quando o vírus compromete os músculos responsáveis pela respiração, pela fala ou pelo ato de engolir, a doença pode colocar a vida em risco. Perda súbita da força, dificuldade inesperada para andar, movimentar um membro, respirar ou engolir exige atendimento médico imediato. Todo caso de paralisia flácida aguda — perda repentina da força e da firmeza muscular — em menores de 15 anos deve ser investigado pelos serviços de vigilância em saúde, mesmo quando outra doença pareça ser a causa.
Por que a poliomielite ainda representa um risco?
Embora o Brasil tenha eliminado a circulação do poliovírus selvagem, isso não significa que o vírus tenha desaparecido do mundo. Pessoas infectadas podem viajar sem apresentar sintomas e levar o agente para outros países. Se ele chegar a uma comunidade com muitas crianças não vacinadas ou com o esquema incompleto, poderá voltar a circular.
Além do poliovírus selvagem, alguns países registram surtos provocados por poliovírus derivados da vacina oral. Isso pode acontecer quando o vírus enfraquecido presente na antiga vacina de “gotinha” circula durante muito tempo entre pessoas não vacinadas e sofre alterações. O problema está relacionado principalmente à baixa cobertura vacinal. A vacina inativada poliomielite (VIP), utilizada atualmente no calendário brasileiro, contém o vírus inativado, que não consegue se multiplicar nem causar poliomielite.
As médias nacionais ou estaduais também podem esconder diferenças entre municípios e bairros. Mesmo quando a cobertura geral melhora, podem permanecer comunidades com grande número de crianças desprotegidas. Por isso, além de alcançar a meta de vacinação, é necessário que a proteção esteja distribuída por todas as regiões.
Segundo a Profa. Dra. Ana Marli Christovam Sartori, médica infectologista, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e responsável pelo setor de imunização do Hospital das Clínicas, a ausência da doença faz com que parte da população se esqueça de sua gravidade e passe a desvalorizar a vacinação. Em entrevista ao Jornal da USP, publicada em 2022, a especialista alertou que a queda da cobertura vacinal aumenta a possibilidade de reintrodução do poliovírus no país.
DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO
A suspeita de poliomielite surge principalmente diante da perda repentina da força e da firmeza muscular, sobretudo nas pernas. Como outras doenças podem provocar manifestações semelhantes, a avaliação médica e a realização de exames são indispensáveis.
O principal exame procura identificar o poliovírus em amostras de fezes. A coleta deve ser realizada o mais rapidamente possível, preferencialmente nos primeiros 14 dias após o início da perda da força. Exames de sangue, do líquido que envolve o cérebro e a medula e dos nervos e músculos também podem ajudar na investigação de outras causas.
Não existe medicamento antiviral capaz de eliminar o poliovírus ou reverter uma paralisia já instalada. O tratamento é direcionado ao controle dos sintomas e à prevenção de complicações. Dependendo da gravidade, pode incluir internação, controle da dor, suporte para a respiração, alimentação adequada e acompanhamento de outras funções do organismo.
A fisioterapia e outros cuidados de reabilitação podem ajudar a preservar os movimentos, evitar deformidades e ampliar a independência da pessoa. Quanto mais cedo o caso suspeito for reconhecido e comunicado aos serviços de saúde, mais rapidamente poderão ser adotadas as medidas de investigação e controle.
PREVENÇÃO E VACINAÇÃO
A vacinação é a principal forma de prevenir a poliomielite. Para impedir que o vírus volte a circular, não basta alcançar uma boa média nacional: é necessário manter uma cobertura elevada e distribuída por todos os municípios e comunidades. Água tratada, saneamento básico, higiene das mãos e cuidado no preparo dos alimentos também ajudam a reduzir a transmissão, mas não substituem a vacina.
No Calendário Nacional de Vacinação de 2026, a proteção é feita exclusivamente com a vacina inativada poliomielite (VIP), aplicada por injeção. O esquema inclui três doses, aos 2, 4 e 6 meses de idade, e dois reforços, aos 15 meses e aos 4 anos. A VIP contém o vírus inativado, que não consegue se multiplicar nem provocar poliomielite.
A vacina oral, conhecida como “gotinha”, deixou de fazer parte da vacinação de rotina no Brasil em novembro de 2024. A substituição faz parte da estratégia mundial de erradicação da doença e evita os eventos extremamente raros relacionados ao vírus enfraquecido presente na vacina oral. Em agosto de 2026, o Ministério da Saúde incluiu novamente o reforço aos 4 anos, agora também realizado com a vacina inativada.
Segundo a Profa. Dra. Anna Luiza Gryschek, professora da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EEUSP), os profissionais de saúde têm papel importante na oferta de orientações claras sobre os benefícios da imunização. Em entrevista ao Jornal da USP, publicada em 2024, a especialista destacou que as vacinas modificaram o perfil das doenças transmissíveis e contribuíram para melhorar a qualidade de vida da população.
Pais e responsáveis devem levar a caderneta de vacinação à Unidade Básica de Saúde (UBS) para verificar se todas as doses foram registradas. Quando houver atraso, a equipe indicará como completar o esquema; normalmente, não é necessário reiniciá-lo. Adultos sem informações sobre as doses recebidas e viajantes com destino a locais onde o vírus circula devem procurar orientação em um serviço de saúde.
Para consultar as vacinas indicadas em cada idade, acesse
Calendário Nacional de Vacinação de 2026.
PREVENÇÃO DA POLIOMIELITE NO AMBIENTE DE TRABALHO
A poliomielite não é considerada uma doença ligada a uma profissão específica. Entretanto, trabalhadores que realizam limpeza de banheiros, coleta de resíduos, conservação de espaços públicos ou atividades com possibilidade de contato com esgoto e materiais contaminados devem seguir cuidadosamente as medidas de higiene e segurança previstas para cada tarefa.
Luvas, botas e os demais equipamentos de proteção indicados para a atividade reduzem o contato direto com resíduos, mas não substituem a higiene das mãos. Após retirar as luvas, o trabalhador deve lavar as mãos com água e sabonete e evitar tocar o rosto, comer, beber ou fumar antes de realizar essa higienização.
A limpeza de banheiros, superfícies e equipamentos deve seguir os procedimentos estabelecidos e as orientações de uso dos produtos. Não se deve misturar produtos químicos nem aumentar sua concentração por conta própria. O acesso à água tratada e o cuidado com o preparo e o armazenamento dos alimentos também contribuem para evitar doenças transmitidas por água, alimentos ou mãos contaminadas.
Segundo o Dr. Marcelo Pustiglione, médico do trabalho que foi professor colaborador da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), a vacinação dos trabalhadores deve considerar a atividade exercida e os riscos presentes no ambiente de trabalho. Em artigo publicado em 2019, o especialista incluiu trabalhadores de limpeza e conservação e coletores de resíduos entre os grupos que merecem atenção preventiva.
Essa atenção inclui manter atualizadas as vacinas recomendadas para cada idade e avaliar possíveis indicações adicionais conforme os riscos da atividade, as condições de saúde e eventuais viagens.
Para conhecer as orientações destinadas a cada área profissional, consulte o
Calendário de Vacinação Ocupacional da SBIm 2026–2027.
Em caso de contato acidental com fezes, esgoto ou outros materiais biológicos, o trabalhador deve realizar a higiene indicada e seguir o procedimento adotado no local de trabalho. Se apresentar perda repentina da força, dificuldade para caminhar, respirar ou engolir, deverá procurar atendimento médico imediato.
ORIENTAÇÃO E ATENDIMENTO
A caderneta de vacinação pode ser verificada gratuitamente em uma Unidade Básica de Saúde (UBS). Mesmo que o documento tenha sido perdido, a pessoa deve procurar o serviço de saúde para receber orientação; a falta da caderneta não impede a aplicação das vacinas indicadas.
Diante de perda repentina da força, dificuldade para caminhar, respirar ou engolir, deve-se procurar imediatamente um serviço de urgência. Informações sobre vacinação, locais de atendimento e poliomielite podem ser consultadas nos seguintes endereços:
Ministério da Saúde — Vacinação
https://www.gov.br/saude/pt-br/vacinacao
Centro de Vigilância Epidemiológica “Prof. Alexandre Vranjac” — Estado de São Paulo
https://www.saude.sp.gov.br/cve-centro-de-vigilancia-epidemiologica-prof.-alexandre-vranjac/
Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo — Postos de Vacinação
https://www.prefeitura.sp.gov.br/web/saude/w/vigilancia_em_saude/vacinacao/360678
Busca Saúde — Localização das unidades da cidade de São Paulo
https://buscasaude.prefeitura.sp.gov.br/
CONCLUSÃO
A poliomielite deixou de fazer parte da realidade cotidiana dos brasileiros graças à vacinação, mas ainda não foi eliminada do mundo. Enquanto o poliovírus continuar circulando em outros países, o Brasil precisará manter uma cobertura vacinal elevada para evitar que a doença seja reintroduzida.
Manter a caderneta das crianças atualizada é uma responsabilidade que protege não apenas quem recebe a vacina, mas toda a comunidade. Cuidados com a higiene das mãos, o saneamento, a água e os alimentos também ajudam a diminuir a transmissão de doenças, especialmente em atividades que envolvem contato com resíduos ou locais contaminados.
Pais e responsáveis devem procurar uma Unidade Básica de Saúde para verificar possíveis doses em atraso. Perda repentina da força, dificuldade para caminhar, respirar ou engolir exige atendimento médico imediato. A poliomielite não possui cura, mas pode ser evitada: manter a vacinação em dia continua sendo a maneira mais segura de impedir sua volta.
https://www.youtube.com/watch?v=2iSk9hJd2iA
Como a poliomielite se manifesta nas crianças; Drauzio Varella; 24 de out. de 2022; https://www.youtube.com/watch?v=sx6zUbct0aw
REFERÊNCIAS
- Brasil. Ministério da Saúde. Poliomielite. Brasília: Ministério da Saúde; 2026; https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/p/poliomielite/poliomielite
- Brasil. Ministério da Saúde. Calendário Nacional de Vacinação. Brasília: Ministério da Saúde; 2026; https://www.gov.br/saude/pt-br/vacinacao/calendario
- Brasil. Ministério da Saúde. Poliomielite/Paralisias Flácidas Agudas — PFA: informe. Brasília: Ministério da Saúde; 2025; https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/p/poliomielite/publicacoes/informe-poliomielite-pfa
- Brasil. Ministério da Saúde. Dia D mobiliza crianças e adolescentes para atualizar a caderneta de vacinação. Brasília: Ministério da Saúde; 2026; https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias-ms/2026/agosto/dia-d-mobiliza-criancas-e-adolescentes-para-atualizar-a-caderneta-de-vacinacao
- Organização Mundial da Saúde. Poliomyelitis. Genebra: OMS; 2025; https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/poliomyelitis
- Organização Pan-Americana da Saúde. Dia Mundial contra a Poliomielite 2026: Américas comemoram 35 anos sem poliovírus selvagem. Washington, DC: OPAS; 2026; https://www.paho.org/pt/noticias/23-10-2026-dia-mundial-contra-poliomielite-2026-americas-comemoram-35-anos-sem-poliovirus
- São Paulo. Secretaria de Estado da Saúde. Dia Mundial da Poliomielite: vacinação é a principal forma de prevenção. São Paulo: Secretaria de Estado da Saúde; 2025; https://www.saude.sp.gov.br/coordenadoria-de-controle-de-doencas/noticias/24102025-dia-mundial-da-poliomielite-vacinacao-e-a-principal-forma-de-prevencao
- Universidade de São Paulo. Poliomielite tem risco muito alto de retornar ao Brasil, segundo a Opas. São Paulo: Jornal da USP; 2022; https://jornal.usp.br/radio-usp/poliomielite-tem-risco-muito-alto-de-retornar-ao-brasil-segundo-a-opas/
- Silva J. Vacina intramuscular contra a pólio substituirá a gotinha, eliminando uma das doses de reforço. São Paulo: Jornal da USP; 2024; https://jornal.usp.br/radio-usp/ministerio-da-saude-deixara-de-usar-vacina-oral-contra-a-poliomielite/
- Pustiglione M. Imunização do trabalhador: importância e desafios. São Paulo: Associação Paulista de Medicina do Trabalho; 2019; https://apmtsp.org.br/imunizacao-do-trabalhador-importancia-e-desafios/
- Sociedade Brasileira de Imunizações. Calendário de Vacinação SBIm Ocupacional 2026–2027. São Paulo: SBIm; 2026; https://sbim.org.br/images/ocupacional-Calend-SBIm-2026-27-260202.pdf_2026-02-02.pdf
- São Paulo. Secretaria Municipal da Saúde. Postos de vacinação. São Paulo: Prefeitura de São Paulo; 2026; https://www.prefeitura.sp.gov.br/web/saude/w/vigilancia_em_saude/vacinacao/360678
VIDEO RECOMENDADO SOBRE A POLIOMELITE
Poliomielite: O que é e como prevenir; Dra. Ana Escobar; 9 de nov. de 2024;
Poliomielite: O que você precisa saber; Dra. Ana Escobar; 25 de out. de 2023;