
Dia mundial da luta contra a AIDS
Instituto Arlindo Gusmão de Fontes (IAGF) – por Rafael Bombein (CREF 016866/SP) 01/12/2025
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Em 1987, durante a 3ª Conferência Internacional de Aids, realizada em Washington (EUA), 200 mil pessoas, ativistas e pessoas vivendo com o vírus, participaram do lado de fora do evento. Queriam ser ouvidas pela comunidade científica e pelo mundo, pois naquele momento, em que não havia tratamento, o silêncio era uma forma de morte.
No ano seguinte foi proposta a criação do Dia Mundial de Luta Contra Aids e, em 27 de outubro, a Assembleia Geral da ONU e a Organização Mundial de Saúde instituíram o 1º de dezembro como data comemorativa, cinco anos após a descoberta do vírus causador da doença (HIV – vírus da imunodeficiência humana). Naquela época, 65,7 mil pessoas já tinham sido diagnosticadas com o vírus e 38 mil já tinham falecido.
A iniciativa se consolidou e até hoje o 1º de dezembro é marcado como o dia de uma campanha global que combate o preconceito, a desinformação e o estigma que ainda perduram em torno da doença.
Esta data constitui uma oportunidade para apoiar as pessoas envolvidas na luta contra o HIV e melhorar a compreensão do vírus como um problema de saúde pública global.
Sob o lema “Zero morte por AIDS em 2030”, a campanha do Dia Mundial da AIDS 2025 busca sensibilizar sobre a realidade da AIDS avançada, dar visibilidade às histórias por trás de cada caso e promover uma resposta coletiva. Governos, profissionais de saúde e toda a sociedade são chamados a acelerar a ação para alcançar a eliminação do HIV até 2030.
Hoje, 40,8 milhões de pessoas vivem com HIV em todo o mundo, 1,3 milhão de novas infecções ocorreram em 2024 e 9,2 milhões de pessoas ainda não têm acesso ao tratamento; https://brasil.un.org/pt-br/305982-unaids-resposta-global-ao-hiv-sofreu-seu-rev%C3%A9s-mais-significativo-em-d%C3%A9cadas
O Vírus
O HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana) é um vírus que ataca o sistema imunológico, responsável por proteger o corpo contra doenças. Quando o vírus não é tratado, ele pode evoluir para a aids (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida), que representa o estágio mais avançado da infecção pelo HIV.
Neste estágio, o sistema imunológico fica extremamente enfraquecido, deixando o organismo mais suscetível a infecções oportunistas e determinados tipos de câncer. As células mais atingidas são os linfócitos T CD4+. O vírus é capaz de alterar o DNA dessa célula e fazer cópias de si mesmo. Depois de se multiplicar, rompe os linfócitos em busca de outros para continuar a infecção.
HIV e Aids NÃO SÃO A MESMA COISA!
HIV – Refere-se ao vírus (retrovírus da subfamília dos Lentiviridae) propriamente dito, que ataca o sistema imunológico. Uma pessoa pode estar infectada pelo HIV, mas não necessariamente apresentar sintomas ou desenvolver aids.
Aids – É a condição de saúde causada pela infecção do HIV em estágio avançado, quando o sistema imunológico está gravemente comprometido. Não é o vírus em si, mas sim um conjunto de sinais e sintomas que caracterizam a falência das defesas imunológicas.
TRANSMISSÃO
O HIV é transmitido principalmente através de fluidos corporais específicos. Saber quais são as formas corretas de transmissão é fundamental para combater o preconceito e a desinformação.
PRINCIPAIS FORMAS DE TRANSMISSÃO
Sexo sem proteção
O HIV pode ser transmitido através de relações sexuais vaginais, anais ou orais sem preservativo, especialmente se houver cortes ou feridas.
Atenção: O sexo anal apresenta maior risco devido à fragilidade da mucosa retal, que facilita a entrada do vírus.
Transmissão vertical (da mãe para o bebê)
O vírus pode ser transmitido durante a gestação, parto ou amamentação.
Importante: Tratamento antirretroviral para gestantes que vivem com HIV reduz o risco de transmissão para menos de 1%. O parto por cesariana e a substituição da amamentação também podem ser indicados.
Compartilhamento de seringas e agulhas contaminadas
O uso compartilhado de seringas, agulhas ou outros equipamentos perfurocortantes pode transmitir o vírus diretamente para a corrente sanguínea. Pessoas que utilizam drogas injetáveis são mais suscetíveis, se não adotarem práticas seguras.
Transfusão de sangue contaminado ou transplante de órgãos
Embora extremamente raro nos dias de hoje devido a testes rigorosos, o risco existe se o sangue ou os órgãos doados estiverem infectados e não forem testados adequadamente.
Importante: Todos os doadores são testados no Brasil.
FORMA DE CONTÁGIO DO VÍRUS HIV
- Sexo vaginal sem camisinha;
- Sexo anal sem camisinha;
- Sexo oral sem camisinha;
- Uso de seringa por mais de uma pessoa;
- Transfusão de sangue contaminado;
- Da mãe infectada para seu filho durante a gravidez, no parto e na amamentação;
- Instrumentos que furam ou cortam não esterilizados.
FORMAS EM QUE O VÍRUS DO HIV NÃO É TRANSMITIDO
- Sexo com o uso correto de preservativo;
- Masturbação a dois;
- Beijo no rosto ou na boca;
- Suor e lágrima;
- Picada de inseto;
- Aperto de mão ou abraço;
- Sabonete/toalha/lençóis;
- Talheres/copos;
- Assento de ônibus;
- Piscina;
- Banheiro;
- Doação de sangue;
- Pelo ar.
SINTOMAS E FASES DA INFECÇÃO
Quando ocorre a infecção pelo vírus causador da aids, o sistema imunológico começa a ser atacado.
Após a exposição ao vírus, os primeiros sintomas surgem entre 3 a 6 semanas.
INFECÇÃO AGUDA (primeira fase)
Essa fase pode parecer uma gripe comum, com:
- Febre alta;
- Dores no corpo;
- Mal-estar.
Atenção: Como os sinais são leves e temporários, muitas pessoas não percebem que foram infectadas.
FASE ASSINTOMÁTICA (segunda fase)
Depois dos sintomas iniciais, o vírus entra em uma fase chamada de assintomática.
O sistema imunológico ainda controla o vírus, e a pessoa pode não apresentar sinais visíveis por vários anos.
Atenção: Como os sinais são leves e temporários, muitas pessoas não percebem que foram infectadas.
INFECÇÃO CRÔNICA (terceira fase)
Com o enfraquecimento do sistema imunológico e os sintomas se tornam mais específico:
- Febre persistente;
- Suores noturnos;
- Diarreia prolongada;
- Perda de peso sem causa aparente.
ESTÁGIO AVANÇADO (Aids)
Se não tratado, o HIV evolui para a aids. O sistema imunológico fica extremamente enfraquecido, permitindo o surgimento de doenças oportunistas, como:
- Tuberculose;
- Pneumonia;
- Tipos de câncer.
Alerta: A principal causa da aids é a falta de diagnóstico ou o abandono do tratamento.
DIAGNÓSTICO
Conhecer o quanto antes a sorologia positiva para o HIV aumenta muito a expectativa de vida de uma pessoa que vive com o vírus. Quem se testa com regularidade, busca tratamento no tempo certo e segue as recomendações da equipe de saúde ganha muito em qualidade de vida.
Atenção: O diagnóstico do HIV é simples, rápido e acessível pelo Sistema Único de Saúde (SUS);
Acesse aqui o portal do SUS https://www.gov.br/saude/pt-br/sus
QUANDO FAZER O TESTE
Recomenda-se fazer o teste de HIV sempre que você:
- Tiver uma relação sexual sem preservativo (respeitar a janela imunológica de 30 dias);
- Compartilhar seringas ou agulhas;
- Passar por situações de risco, como acidentes com materiais contaminados;
- Apresentar sintomas de infecção aguda (febre, mal-estar, dor no corpo) após exposição de risco.
ATENÇÃO!
A testagem permite a identificar precocemente o HIV e assim iniciar o tratamento antirretroviral (TARV) o quanto antes.
TESTES RÁPIDOS
Testes rápidos imunocromatográficos são aqueles cuja execução, leitura e interpretação dos resultados são feitas em, no máximo, 30 minutos. Além disso, são de fácil execução e não necessitam de estrutura laboratorial.
Os testes rápidos são recomendados para testagens presenciais, preferencialmente com amostra de sangue total obtida por punção da polpa digital (“picada” no dedo), permitindo também o uso do sangue total coletado por punção venosa. Dependendo do teste/fabricante, há também enquanto opções de amostras o soro ou plasma, provenientes do sangue processado após a coleta por punção venosa, e o fluido oral, coletado utilizando um dispositivo (swab/cotonete) específico.
Quem pode fazer o teste?
Qualquer pessoa pode fazer o teste rápido de HIV, independentemente de idade, gênero, orientação sexual ou qualquer outra condição. O teste é oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e também está disponível em algumas farmácias e outros locais.
Onde fazer?
- Unidades Básicas de Saúde (UBSs): Procure a UBS mais próxima de sua casa.
- Centros de Testagem e Aconselhamento (CTAs): Os CTAs oferecem testes e aconselhamento especializado.
- Disque Saúde (136): Ligue para o Disque Saúde para obter informações sobre onde fazer o teste.
Por que fazer?
O teste rápido de HIV é importante para o diagnóstico precoce da infecção. Quanto mais cedo o diagnóstico, mais cedo a pessoa pode iniciar o tratamento e ter uma melhor qualidade de vida. Além disso, o diagnóstico precoce ajuda a prevenir a transmissão do vírus para outras pessoas.
AUTOTESTE
O autoteste de HIV é mais uma tecnologia de prevenção disponível gratuitamente, em que, diferentemente dos procedimentos tradicionais de testagem, o próprio usuário é quem faz o exame, sem auxílio de um profissional.
Onde fazer?
Você pode retirar o seu kit de autoteste em uma das 28 unidades municipais especializadas em IST/Aids da capital paulista e nas 17 unidades 24 horas parceiras.
Endereços da Rede Municipal Especializada em IST/Aids;
https://prefeitura.sp.gov.br/web/saude/w/istaids/245171
Além dos serviços de saúde, o autoteste também está disponível em diversos pontos da cidade que possuem parceria com a Coordenadoria de IST/Aids na disponibilização gratuita de insumos de prevenção ao HIV.
Como fazer?
O passo a passo de como fazer o exame vem explicado na bula. O texto é acompanhado por uma série de ilustrações para facilitar o entendimento. Você também pode assistir ao vídeo explicativo abaixo:
DÚVIDAS FREQUENTES
Quem pode fazer o autoteste?
O autoteste pode ser realizado por todo mundo onde e quando quiser! No Sistema Único de Saúde (SUS), os kits são distribuídos preferencialmente para as populações mais vulneráveis à epidemia de HIV, como gays e outros homens que fazem sexo com homens, pessoas trans e travestis e profissionais do sexo, por exemplo.
ATENÇÃO!
Quem tem entre 12 e 18 anos pode realizar o exame desacompanhados dos responsáveis.
Se feito da forma correta o teste é tão eficiente quanto o teste realizado por profissionais de saúde, o teste tem a mesma precisão (99,9%) de resultado dos realizados nas unidades de saúde.
Teste positivo
Caso o teste de positivo o usuário deve procurar uma das 28 unidades municipais especializadas em IST/Aids de São Paulo para fazer o teste confirmatório. Se persistir o resultado, o paciente é vinculado em um dos Serviços de Atenção Especializada (SAE) em IST/Aids para ser acompanhado e iniciar o tratamento.
Precisa refazer?
Se você fez sexo sem proteção no último mês e não usou a Profilaxia Pós-Exposição (PEP), é importante você repetir o seu autoteste de HIV para confirmar o resultado. A infecção pelo HIV só pode ser detectada com, pelo menos, 30 dias a contar da situação de risco. Isso porque o exame (o laboratorial ou o teste rápido) busca por anticorpos contra o vírus no sangue. Esse período é chamado de janela sorológica.
TESTES LABORATORIAIS
Além dos testes rápidos, o SUS oferece exames laboratoriais mais específicos para confirmar o diagnóstico e monitorar a infecção:
- Carga Viral: Mede a quantidade de vírus no sangue;
- Contagem de Linfócitos (tipo de glóbulo branco (leucócito) que atua na defesa do sistema imunológico): Avalia a saúde do sistema imunológico;
- Genotipagem do HIV: Identifica mutações do vírus para personalizar o tratamento.
Esses exames são realizados pela Rede Nacional de Laboratórios do SUS, que garante a qualidade e a agilidade nos resultados em todo o Brasil.
IMPORTANTE!
Em qualquer unidade, você pode fazer o teste de forma anônima. Antes e depois do exame, profissionais realizam um aconselhamento, ajudando a entender o resultado e os próximos passos.
PREVENÇÃO
A prevenção do HIV evoluiu muito nos últimos anos. Hoje, além do uso de preservativos, há uma abordagem mais completa: a Prevenção Combinada. Ela envolve a combinação de várias estratégias, adaptadas às necessidades de cada pessoa ou situação, para maximizar a proteção contra o HIV.
Prevenção combinada
Cada pessoa tem uma realidade diferente. A prevenção combinada permite que estratégias sejam personalizadas. Ao unir métodos como preservativos, PEP (Profilaxia Pós-Exposição): medicamento usado até 72 horas após uma situação de risco. O tratamento dura 28 dias e é eficaz se seguido corretamente, PrEP (Profilaxia Pré-Exposição): medicamento tomado por pessoas com maior risco de exposição para prevenir a infecção antes de ocorrer, e testagem regular, podemos criar uma barreira mais robusta contra a propagação do HIV.
ATENÇÃO!
Escolher a melhor combinação de formas de prevenção é um ato de cuidado com a própria saúde e com a saúde coletiva.
ESTRATÉGIAS DE PREVENÇÃO DO HIV
Intervenções biomédicas
São métodos que envolvem proteção física ou o uso de medicamentos.
- Preservativos (camisinha): protegem contra o HIV e outras Infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Estão disponíveis gratuitamente no SUS;
- PEP (Profilaxia Pós-Exposição);
- PrEP (Profilaxia Pré-Exposição).
Intervenções comportamentais
São ações que ajudam a entender e reduzir os riscos.
- Uso regular de preservativos interno ou externo.
- Testagem frequente para HIV: saber o diagnóstico permite começar o tratamento cedo.
- Educação entre pares: conversar e trocar informações em grupos.
Intervenções estruturais
- Essas ações combatem fatores sociais que aumentam o risco de HIV, como:
- Luta contra preconceitos (racismo, LGBTfobia, sexismo).
- Promoção de direitos humanos.
- Educação em saúde e campanhas de conscientização.
TRATAMENTO
Os medicamentos antirretrovirais (ARV) surgiram na década de 1980 para impedir a multiplicação do HIV no organismo. Esses medicamentos ajudam a evitar o enfraquecimento do sistema imunológico. Por isso, o uso regular dos ARV é fundamental para aumentar o tempo e a qualidade de vida das pessoas que vivem com HIV e reduzir o número de internações e infecções por doenças oportunistas.
Desde 1996, o Brasil distribui gratuitamente os ARV a todas as pessoas vivendo com HIV que necessitam de tratamento.
Atenção!
Pessoas que fazem tratamento corretamente não transmite o vírus, contribuindo para a redução da epidemia.
Referencias
https://www.paho.org/pt/campanhas/dia-mundial-da-aids-2025
https://www.gov.br/aids/pt-br/assuntos/testes-rapidos-1
https://prefeitura.sp.gov.br/web/saude/w/istaids/245171
Para saber mais
Drauzio Varella; quais são as diferenças entre HIV e aids; 2 de dezembro de 2024;
Aids: A história da luta contra a doença; Pesquisa FAPESP; 4 de fev. de 2024;