
Dia mundial de conscientização dos transtornos alimentares.
Quando a informação e o cuidado precoce podem salvar vidas.
Instituto Arlindo Gusmão de Fontes (IAGF) – por Rafael Bombein (CREF 016866/SP) 01/06/2026
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O Dia Mundial de Conscientização dos Transtornos Alimentares, celebrado em 2 de junho, é dedicado à ampliação do conhecimento sobre doenças que afetam milhões de pessoas em todo o mundo e que podem causar importantes impactos físicos, emocionais e sociais. A data busca combater o estigma, promover informação baseada em evidências científicas e incentivar a procura por ajuda especializada.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os transtornos alimentares figuram entre os transtornos mentais com maior impacto sobre a saúde e a qualidade de vida, podendo acometer pessoas de diferentes idades, gêneros e condições sociais. Estudos internacionais estimam que mais de 70 milhões de pessoas convivam com algum transtorno alimentar no mundo.
No Brasil, pesquisas epidemiológicas apontam aumento das preocupações relacionadas à imagem corporal, dos comportamentos alimentares inadequados e dos sintomas associados aos transtornos alimentares, especialmente entre adolescentes e adultos jovens. Especialistas alertam que muitos casos permanecem sem diagnóstico, retardando o início do tratamento.
Frequentemente, essas doenças se desenvolvem de forma gradual e silenciosa. Mudanças importantes nos hábitos alimentares, preocupação excessiva com peso e aparência física, isolamento social, episódios recorrentes de compulsão alimentar ou restrição alimentar intensa podem representar sinais de alerta. Nesse contexto, a conscientização e o reconhecimento precoce dos sintomas são fundamentais para melhorar o prognóstico e reduzir complicações.
O QUE SÃO OS TRANSTORNOS ALIMENTARES
Os transtornos alimentares constituem um grupo de doenças mentais caracterizadas por alterações persistentes nos comportamentos relacionados à alimentação, ao peso corporal e à percepção da própria imagem.
Essas condições vão muito além de hábitos alimentares inadequados ou preocupações estéticas. Trata-se de doenças complexas, influenciadas por fatores biológicos, psicológicos, familiares, sociais e culturais.
De acordo com o Dr. Táki Athanássios Cordás, médico psiquiatra e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e referência nacional no estudo dos transtornos alimentares, essas doenças apresentam elevada morbidade e exigem abordagem multidisciplinar para diagnóstico e tratamento adequados.
PRINCIPAIS TRANSTORNOS ALIMENTARES
Os transtornos alimentares podem se manifestar de diferentes formas e apresentam impactos importantes sobre a saúde física, emocional e social. Essas doenças não estão relacionadas apenas à alimentação, mas também à forma como a pessoa percebe o próprio corpo, lida com emoções e se relaciona com o peso e a própria imagem corporal.
Entre os transtornos alimentares mais frequentes estão a anorexia nervosa, a bulimia nervosa e o transtorno da compulsão alimentar periódica. Embora apresentem características distintas, todos podem causar prejuízos significativos à saúde e comprometer a qualidade de vida quando não diagnosticados e tratados adequadamente.
De acordo com o Dr. Táki Cordás, os transtornos alimentares são doenças complexas, influenciadas por fatores biológicos, psicológicos, familiares e socioculturais. Segundo o especialista, a identificação precoce dos sinais de alerta é fundamental para aumentar as chances de recuperação e reduzir complicações clínicas e emocionais.
Além dos quadros mais conhecidos, outras formas de transtornos alimentares também podem ocorrer, exigindo avaliação especializada e acompanhamento multiprofissional. Por esse motivo, a informação qualificada e o acesso precoce aos serviços de saúde são considerados estratégias essenciais para o diagnóstico e o tratamento dessas condições.
ANOREXIA NERVOSA
A anorexia nervosa é um transtorno alimentar caracterizado pela restrição persistente da alimentação, intenso medo de ganhar peso e distorção da própria imagem corporal. Mesmo quando apresentam peso abaixo do esperado para a idade e a estatura, muitas pessoas continuam acreditando que estão acima do peso.
Além da perda significativa de peso, podem ocorrer sinais como cansaço excessivo, tonturas, alterações menstruais, intolerância ao frio, queda de cabelo e dificuldades de concentração. Em muitos casos, a preocupação com alimentação, calorias e aparência passa a ocupar grande parte do dia, interferindo nas atividades escolares, profissionais e sociais.
Segundo especialistas, a anorexia nervosa está entre os transtornos psiquiátricos com maior risco de complicações clínicas e mortalidade quando não diagnosticada e tratada adequadamente, reforçando a importância da identificação precoce e do acompanhamento multiprofissional.
BULIMIA NERVOSA
A bulimia nervosa é caracterizada por episódios recorrentes de compulsão alimentar, nos quais a pessoa ingere grandes quantidades de alimentos em curto período, acompanhados da sensação de perda de controle.
Após esses episódios, podem ocorrer comportamentos compensatórios inadequados na tentativa de evitar o ganho de peso, como vômitos provocados, uso inadequado de laxantes, jejuns prolongados ou prática excessiva de exercícios físicos.
Muitas pessoas com bulimia mantêm peso corporal dentro da faixa considerada normal, o que pode dificultar a identificação da doença por familiares e até mesmo por profissionais de saúde. Além das repercussões emocionais, o transtorno pode provocar alterações digestivas, problemas dentários e complicações metabólicas quando não tratado adequadamente.
TRANSTORNO DA COMPULSÃO ALIMENTAR PERIÓDICA
O transtorno da compulsão alimentar periódica caracteriza-se pela ingestão de grandes quantidades de alimentos em curto espaço de tempo, acompanhada da sensação de perda de controle sobre o ato de comer.
Diferentemente da bulimia nervosa, não há comportamentos compensatórios regulares após os episódios de compulsão. Por esse motivo, muitos indivíduos podem apresentar ganho de peso e desenvolver outras condições associadas, como obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares.
Além dos impactos físicos, é comum que a pessoa experimente sentimentos de culpa, vergonha e sofrimento emocional após os episódios. Segundo estudos internacionais, esse é um dos transtornos alimentares mais frequentes na população adulta, sendo frequentemente subdiagnosticado (quando o número de casos reais de uma doença, transtorno ou condição é maior do que o número oficialmente detectado e registrado) e subtratado (tratado de forma insuficiente ou abaixo do necessário).
FATORES DE RISCO
Os transtornos alimentares possuem origem multifatorial, ou seja, não são causados por um único fator. Seu desenvolvimento geralmente resulta da interação entre fatores biológicos, psicológicos, familiares, sociais e culturais, que podem aumentar a vulnerabilidade de determinadas pessoas ao surgimento dessas doenças.
Entre os principais fatores associados ao desenvolvimento dos transtornos alimentares destacam-se o histórico familiar de transtornos mentais ou alimentares, baixa autoestima, insatisfação com a imagem corporal, experiências de bullying relacionadas ao peso ou à aparência física, além de quadros de ansiedade, depressão e outras condições emocionais.
Também podem contribuir para o surgimento dessas doenças a pressão por padrões estéticos considerados ideais, a valorização excessiva da magreza ou da aparência física e o uso intenso de redes sociais associado à comparação constante do próprio corpo com imagens frequentemente irreais ou editadas.
Segundo a Dra. Angélica Claudino, pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), a identificação precoce dos fatores de risco pode contribuir significativamente para a prevenção, permitindo intervenções precoces que os sintomas se agravem. De acordo com a especialista, a promoção de uma relação saudável com a alimentação, com o corpo e com a saúde mental constitui uma das principais estratégias de prevenção dos transtornos alimentares.
DIAGNÓSTICO DOS TRANSTORNOS ALIMENTARES
O diagnóstico dos transtornos alimentares é realizado por profissionais de saúde capacitados, por meio da avaliação clínica, psicológica e, quando necessário, psiquiátrica. O processo envolve a análise dos hábitos alimentares, da relação da pessoa com o próprio corpo, dos comportamentos relacionados ao peso e à alimentação, além dos impactos físicos, emocionais e sociais provocados pelos sintomas.
Não existe um exame laboratorial específico capaz de confirmar isoladamente o diagnóstico do transtorno. Exames de sangue, avaliações nutricionais e outros procedimentos podem ser utilizados para identificar complicações e auxiliar no acompanhamento do paciente, mas o diagnóstico depende principalmente da avaliação realizada pela equipe de saúde.
De acordo com o Dr. Cordás, o reconhecimento precoce dos sinais de alerta é um dos fatores mais importantes para o sucesso do tratamento. Alterações importantes no comportamento alimentar, preocupação excessiva com peso e aparência, episódios frequentes de compulsão alimentar e mudanças significativas de peso merecem atenção e avaliação especializada.
Quanto mais precoce for o diagnóstico, maiores são as chances de recuperação, menor o risco de complicações clínicas e emocionais e melhor a qualidade de vida da pessoa afetada. Por esse motivo, familiares, educadores e profissionais de saúde desempenham papel fundamental na identificação dos primeiros sinais e no encaminhamento para atendimento adequado.
ONDE BUSCAR ATENDIMENTO
O atendimento às pessoas com transtornos alimentares pode ser realizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
A porta de entrada ocorre por meio das Unidades Básicas de Saúde (UBS), responsáveis pela avaliação inicial e encaminhamento para serviços especializados quando necessário.
Entre os serviços de referência destacam-se:
- Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP)
https://www.hc.fm.usp.br/ - Programa de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (AMBULIM)
https://ambulim.org.br/ - Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)
https://www.unifesp.br/ - Localização das UBS – Município de São Paulo
https://buscasaude.prefeitura.sp.gov.br/
CONCLUSÃO
Os transtornos alimentares representam um importante desafio para a saúde pública, afetando milhões de pessoas em todo o mundo e produzindo impactos que vão muito além da alimentação, alcançando diferentes dimensões da vida. Essas condições podem comprometer a saúde física, emocional e social, interferindo nos estudos, no trabalho, nas relações familiares e na qualidade de vida.
Nesse contexto, o Dia Mundial de Conscientização dos Transtornos Alimentares reforça a importância da informação qualificada, da redução do estigma e da ampliação do acesso ao diagnóstico e ao tratamento. Mais do que uma data simbólica, trata-se de uma oportunidade para promover o conhecimento, estimular o diálogo sobre saúde mental e fortalecer ações de prevenção e cuidado em diferentes espaços da sociedade.
As evidências científicas demonstram que o reconhecimento precoce dos sinais e sintomas, aliado ao acompanhamento multiprofissional adequado, aumenta significativamente as chances de recuperação e reduz o risco de complicações clínicas e emocionais. Por esse motivo, familiares, educadores, profissionais de saúde e a própria comunidade desempenham papel fundamental na identificação precoce e no acolhimento das pessoas afetadas.
Investir em educação em saúde, promover ambientes mais acolhedores e garantir acesso oportuno aos serviços especializados são medidas essenciais para enfrentar os transtornos alimentares. Ao ampliar a conscientização e fortalecer o cuidado integral, é possível contribuir para a recuperação, a inclusão social e a melhoria da qualidade de vida das pessoas que convivem com essas condições.
REFERÊNCIAS
World Health Organization (WHO). Mental health: eating disorders [Internet]. Geneva: World Health Organization. Available from: https://www.who.int
World Eating Disorders Action Day. World Eating Disorders Action Day [Internet]. Available from: https://www.worldeatingdisordersday.org
Galmiche M, Déchelotte P, Lambert G, Tavolacci MP. Prevalence of eating disorders over the 2000–2018 period: a systematic literature review. Am J Clin Nutr. 2019;109(5):1402-1413.
Santomauro DF, Melen S, Mitchison D, Vos T, Whiteford H, Ferrari AJ. The hidden burden of eating disorders: an extension of estimates from the Global Burden of Disease Study 2019. Lancet Psychiatry. 2021;8(4):320-328.
Cordás TA. Programa de Transtornos Alimentares (AMBULIM). Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. São Paulo: Universidade de São Paulo.
Claudino AM. Departamento de Psiquiatria. Escola Paulista de Medicina. Universidade Federal de São Paulo. São Paulo: UNIFESP.
Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP) [Internet]. São Paulo: Universidade de São Paulo. Available from: https://www.hc.fm.usp.br
Programa de Transtornos Alimentares (AMBULIM). Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo [Internet]. São Paulo: Universidade de São Paulo. Available from: https://ambulim.org.br
Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) [Internet]. São Paulo: UNIFESP. Available from: https://www.unifesp.br
Brasil. Ministério da Saúde. Saúde mental e atenção psicossocial no Sistema Único de Saúde (SUS) [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde. Available from: https://www.gov.br/saude
Prefeitura do Município de São Paulo. Busca Saúde: rede municipal de serviços de saúde [Internet]. São Paulo: Secretaria Municipal da Saúde. Available from: https://buscasaude.prefeitura.sp.gov.br
VÍDEO RECOMENDADO SOBRE TRANSTORNOS ALIMENTARES
Transtornos alimentares: como reconhecer os sinais, Drauzio Varella, 15 de set. de 2025
O culto à magreza e os perigos do emagrecimento extremo. Drauzio Varella, 25 de nov. de 2024
Sintomas da anorexia nervosa, Drauzio Varella, 19 de set. de 2011;
Sintomas da bulimia nervosa, Drauzio Varella, 30 de out. de 2014;