Risco do açúcar a saúde

Instituto Arlindo Gusmão de Fontes (IAGF) – por Rafael Bombein (CREF 016866/SP) 25/08/2025

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Organização Mundial de Saúde (OMS) preconiza que apenas 10% do total de calorias consumidas diariamente deve ser proveniente do açúcar. Para benefícios adicionais a alimentação deve restringir-se a 5%. 

O Guia Alimentar para a População Brasileira recomenda a utilização de açúcar em pequenas quantidades ao temperar e cozinhar alimentos e criar preparações culinárias e que seja evitado o consumo de alimentos ultraprocessados, como é o caso das bebidas adoçadas com açúcar ou adoçantes artificiais. 

Os problemas decorrentes da ingestão exagerada de açúcar vão muito além de processo odontológico, como a cárie, tão comum entre os brasileiros. O consumo excessivo deste ingrediente prejudica a saúde e contribui para o excesso de peso e outras doenças crônicas associadas, como o diabetes tipo 2 e câncer.

O açúcar é um grande vilão para o corpo humano. Não é de hoje que se sabe de seus malefícios. Os alimentos açucarados contêm carboidratos simples, por isso seu consumo excessivo faz com que o organismo humano acumule uma enorme quantidade de gordura, o que só faz piorar seu funcionamento.

Segundo Ruth Franklin, nutricionista registrada na Henry Ford Health, uma dieta rica em açúcar pode causar;

  • Sono de má qualidade: “Muitas pesquisas mostram uma conexão entre açúcar adicionado e qualidade do sono”; uma dieta rica em açúcar pode levar a ficar se revirando na cama à noite, resultando em fadiga diurna.
  • Baixos níveis de energia: Além de afetar o sono, o açúcar afeta sua energia de outras maneiras. O açúcar refinado causa um pico temporário nos níveis de energia. Mas esse pico geralmente é seguido por uma grande queda. “Esses picos e quedas podem levar a períodos de sensação de lentidão ou fadiga ao longo do dia”;
  • Irritabilidade: Altos e baixos níveis de açúcar também causam alterações de humor e irritabilidade. “Essas quedas de energia podem agravar o estresse ou aumentar os sintomas de transtornos como ansiedade e depressão”;
  • Acne: “Comer muito açúcar leva a um pico na produção de insulina, o hormônio que reduz os níveis de açúcar no sangue”; 
  • Inflamação: Uma dieta rica em açúcar refinado causa aumento da inflamação em todo o corpo. E a inflamação crônica está associada a uma série de problemas, incluindo diabetes, câncer, doenças cardíacas e doenças autoimunes.
  • Desejos: “As empresas alimentícias querem tornar os alimentos ‘hiper palatáveis’ — ou seja, super saborosos — para que queiramos comer mais. O açúcar é um componente importante dessa hiper palatabilidade”;

Segundo Ruth Franklin quanto mais açúcar comemos, mais desejos temos. Isso pode levar ao ganho de peso e a todos os outros problemas que acompanham o excesso de açúcar.

A nutricionista Patrícia Campos Ferraz, da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, mestre em Ciência dos Alimentos pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP, explica que, graças à herança portuguesa, “temos o hábito de comer alimentos muito açucarados e a indústria sabe disso e põe muito açúcar nos produtos processados e ultraprocessados”.  

DOENÇAS CAUSADAS PELO AÇÚCAR

O excesso de açúcar pode desencadear doenças como diabetes, que compromete vários órgãos do corpo, além de doenças vasculares, e obesidade, já que a gordura é uma inflamação das células do corpo. Isso sem falar dos olhos. “O excesso de açúcar pode prejudicar bastante o organismo, pode desencadear diabetes naqueles indivíduos que já têm predisposição para isso, obesidade, pode desencadear excesso de calorias. Os órgãos mais afetados por um consumo mais elevado de açúcar, e não presença da diabetes, seriam os vasos sanguíneos, os membros (braços e pernas), o pâncreas, que trabalha demais e de forma insuficiente, os rins também são bastante danificados quando há um certo desequilíbrio no metabolismo do açúcar em geral”, diz a nutricionista Patrícia Ferraz.

Temos outros sabores, como o azedo e o amargo, e eles não são conhecidos muitas vezes. O brasileiro precisa se acostumar a sentir o gosto dos alimentos in natura (do latim, que significa “na natureza”, refere-se a alimentos de origem vegetal ou animal que chegam ao consumo sem terem sofrido alterações significativas após deixarem a natureza) e enfatizar o sabor do ingrediente, destacando o produto e não o açúcar. “As pessoas precisam reduzir o consumo do açúcar e de adoçantes, porque isso máscara muito o sabor das coisas, e aprender a sentir outros sabores que não o doce”, comenta a nutricionista Patrícia. Além do doce e do salgado, cujos sabores temos facilidade para reconhecer, “a gente tem o azedo, o amargo, a gente tem aromas que são mascarados quando a comida, de forma geral, tem muito açúcar ou muito sal. Então, reduzir o açúcar, qualquer tipo de açúcar, e aprender a sentir outros sabores é a dica fundamental”, orienta a nutricionista.  

RELAÇÃO AÇÚCAR E CÂNCER

Segundo Dra. Maria Del Pilar Estevez Diz, médica oncologista e diretora do Corpo Clínico do Instituto do Câncer do Estado de SP (Icesp), a relação entre consumo de açúcar e aparecimento de câncer é indireta. “O aumento do consumo de açúcar está associado com outras doenças que estão diretamente relacionadas ao câncer, como a obesidade e diabete. Existem alguns estudos experimentais mostrando que o consumo excessivo de açúcar em animais de laboratório pode levar a um estado inflamatório e isso facilitaria o advento de câncer, mas a gente não tem isso de uma maneira tão clara, o açúcar em si não é um carcinógeno (também chamado de cancerígeno ou carcinogênico (é uma substância, agente ou fenómeno capaz de provocar ou estimular o desenvolvimento de cancro, câncer, num organismo vivo).”

Nesse mesmo princípio, diversos cânceres podem surgir devido a esse processo inflamatório. “A gente tem uma série de câncer relacionada a essa condição clínica e que está muito associada também ao estilo de vida, como o câncer de mama, o câncer de próstata, colorretal, rim, fígado, pâncreas, câncer uterino e ovário”, diz Dra. Maria Del Pilar. 

USO DO ASPARTAME

O uso de adoçantes, que são muito comuns em produtos industrializados, também deve ser ponto de atenção. A Dra. Pilar explica que não é proibido usar essas substâncias, mas que elas estão potencialmente ligadas ao câncer e devem ser evitadas, com destaque para o aspartame, incluído recentemente pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como substância “possivelmente cancerígena”. “Hoje o que está sendo considerado seguro é equivalente a no máximo 40 mg por quilo por dia, o que daria cerca de nove latinhas de refrigerantes por dia. Isso não é pouco. É que esses adoçantes não estão presentes só no refrigerante, eles estão presentes numa série de produtos alimentares. Então, às vezes a pessoa pode estar consumindo muito adoçante sem saber. A orientação geral é: sempre que possível não consuma. É uma mudança de hábito mesmo”, enfatiza a médica.

A maioria das pessoas sabe que exagerar no açúcar não é uma boa ideia. Mesmo assim, a maioria não consegue resistir a um doce. “É fácil desejar açúcar”, diz a nutricionista Ruth Franklin.