Os riscos da gordura trans à saúde.
Quando a alimentação se torna um risco para a saúde.

Instituto Arlindo Gusmão de Fontes (IAGF) – por Rafael Bombein (CREF 016866/SP) 16/03/2026

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A alimentação faz parte da rotina diária e, muitas vezes, está associada apenas ao prazer, à praticidade ou à sensação de saciedade. No entanto, quando a dieta passa a ser baseada principalmente em alimentos ultraprocessados, ela pode se transformar em um fator silencioso de prejuízo à saúde, com efeitos que se acumulam ao longo do tempo.

Alimentos ultraprocessados são produtos industriais elaborados a partir de ingredientes extraídos, refinados ou sintetizados de alimentos — como óleos, gorduras, açúcares, amidos e proteínas — combinados com aditivos como corantes, aromatizantes, emulsificantes e conservantes. Esses produtos passam por diversas etapas de processamento e, em geral, não se parecem com alimentos naturais nem com preparações feitas em casa. Exemplos comuns incluem refrigerantes, biscoitos recheados, salgadinhos, bolos industrializados, margarinas, macarrão instantâneo, embutidos e refeições prontas.

Dentro desse conjunto de produtos, um dos principais componentes responsáveis pelos riscos à saúde é a gordura trans, amplamente utilizada pela indústria alimentícia por razões tecnológicas e econômicas. Sua presença esteve historicamente associada justamente aos alimentos ultraprocessados, devido à capacidade de aumentar a durabilidade, melhorar a textura e reduzir custos de produção.

O problema é que o consumo frequente desses alimentos provoca alterações importantes no funcionamento do organismo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a gordura trans contribui para o entupimento das artérias, aumenta o colesterol LDL (“ruim”), reduz o colesterol HDL (“bom”) e favorece processos inflamatórios, elevando significativamente o risco de infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e morte por doenças cardiovasculares.

Esse entendimento é reforçado pelo diretor-geral da OMS, Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus, que destaca que “a gordura trans não tem nenhum benefício conhecido e apresenta enormes riscos à saúde. Eliminá-la é uma das formas mais eficazes e custo-efetivas de salvar vidas”.

Um aspecto especialmente preocupante é que os efeitos da gordura trans não costumam causar sintomas imediatos. O dano ocorre de forma lenta e acumulativa, ao longo dos anos, até que surjam doenças como hipertensão, diabetes ou problemas cardíacos. Por isso, muitas pessoas consomem esses produtos diariamente sem perceber que os riscos estão sendo construídos no longo prazo.

A GORDURA TRANS NÃO É UMA ESCOLHA INDIVIDUAL

Diante desses riscos, é fundamental compreender que o consumo de gordura trans não pode ser explicado apenas como uma escolha pessoal. As decisões alimentares são fortemente influenciadas pelo ambiente alimentar, pelas condições de vida, pelo custo dos alimentos e pelas estratégias de produção e marketing da indústria.

Em muitos contextos, os alimentos ultraprocessados são mais baratos, amplamente disponíveis, fortemente divulgados e exigem menos tempo de preparo do que alimentos in natura ou minimamente processados. Além disso, a informação nutricional nem sempre é clara ou acessível, o que dificulta escolhas mais conscientes no dia a dia.

A pesquisadora Dra. Maria Laura Louzada, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), destaca que o modelo atual do sistema alimentar favorece o consumo de produtos ultraprocessados em detrimento de alimentos frescos e preparações culinárias tradicionais. Segundo a pesquisadora, esse modelo amplia os riscos à saúde e afeta de forma mais intensa populações em situação de maior vulnerabilidade social.

Por esse motivo, a eliminação da gordura trans industrial é considerada uma medida estrutural de proteção à saúde, baseada em evidências científicas e voltada à proteção de toda a população, independentemente do nível de informação ou das possibilidades individuais de escolha.

IMPACTOS NA SAÚDE

Quando o consumo de gordura trans se torna frequente, os impactos sobre a saúde vão além de alterações isoladas. Esse tipo de gordura provoca mudanças metabólicas e inflamatórias relevantes no organismo e está diretamente associado ao desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis. Diferentemente de outros tipos de gordura, não existe quantidade segura para o consumo de gordura trans.

Entre os principais impactos à saúde, destacam-se:

  • Doenças Cardiovasculares, causadas pelo acúmulo de gordura nas artérias, que dificulta a circulação do sangue.
  • Infarto do Miocárdio, decorrente da obstrução das artérias que irrigam o coração.
  • Acidente Vascular Cerebral (AVC), provocado pela interrupção do fluxo sanguíneo para o cérebro.
  • Aumento da Inflamação no Organismo, que favorece o surgimento e o agravamento de várias doenças crônicas.
  • Resistência à Insulina, aumentando o risco de diabetes tipo 2.
  • Piora do Diabetes tipo 2, com maior chance de complicações cardiovasculares.

Segundo a Dra. Maria Laura Louzada (USP), o consumo frequente de alimentos ultraprocessados — principais fontes de gordura trans industrial — está associado a pior perfil metabólico, maior inflamação e aumento do risco de doenças cardiovasculares e de morte precoce no Brasil.

Esses efeitos tendem a se somar a outros fatores de risco, como sedentarismo, excesso de peso e hipertensão, comprometendo a qualidade de vida e reduzindo a expectativa de vida da população.

COMO PROTEGER A SAÚDE E EVITAR A GORDURA TRANS

Diante desse cenário, proteger a saúde exige mais do que evitar um único alimento. Trata-se de construir hábitos possíveis e sustentáveis, respeitando a realidade de cada pessoa e o contexto em que ela vive.

Algumas orientações importantes incluem:

  • Priorizar alimentos in natura ou minimamente processados, como frutas, legumes, verduras, arroz, feijão e carnes frescas.
  • Reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados.
  • Ler os rótulos e evitar produtos que contenham “gordura vegetal parcialmente hidrogenada”.
  • Utilizar óleos e gorduras mais saudáveis em pequenas quantidades
  • Valorizar o preparo de refeições caseiras sempre que possível

Segundo o Dr. Francesco Branca, diretor do Departamento de Nutrição e Segurança dos Alimentos da OMS, “a eliminação da gordura trans é uma medida viável, acessível e capaz de salvar vidas”.

POLÍTICAS PÚBLICAS E PROTEÇÃO À POPULAÇÃO

Brasil

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 632/2022, que proibiu a produção, importação e uso de óleos e gorduras parcialmente hidrogenados em alimentos. Essa medida segue as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e integra as ações do Sistema Único de Saúde (SUS) voltadas à prevenção de doenças cardiovasculares.

Mundo

Em âmbito internacional, a Organização Mundial da Saúde (OMS) coordena a estratégia global REPLACE, que orienta os países a eliminar a gordura trans industrial da cadeia alimentar e reduzir mortes evitáveis associadas às doenças cardiovasculares.

CONCLUSÃO

Ao longo do tempo, o consumo de gordura trans mostrou-se um fator de risco comprovado, silencioso e evitável. Sua presença na alimentação está diretamente ligada ao aumento de doenças cardiovasculares, diabetes e mortes precoces, impactando tanto a saúde individual quanto a coletiva.

Eliminar a gordura trans da alimentação é uma das estratégias mais eficazes, custo-efetivas e justas de prevenção em saúde pública, protegendo toda a população. Para isso, é fundamental combinar informação, ambientes alimentares mais saudáveis e políticas públicas consistentes.

A alimentação deve ser um instrumento de cuidado, promoção da saúde e bem-estar — nunca uma causa de adoecimento.

REFERÊNCIAS

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PARA SABER MAIS

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Guia alimentar para a população brasileira. 2ª ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2014. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-brasil/publicacoes-para-promocao-a-saude/guia_alimentar_populacao_brasileira_2ed.pdf


VÍDEOS RECOMENDADOS

Alimentos ultraprocessados e câncer: conheça os impactos para a saúde [Internet]. YouTube; [date unknown] [cited 2026 Mar 14]. Available from:


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PARA SABER MAIS

Instituto Arlindo Gusmão de Fontes – IAGF

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Instituto Arlindo Gusmão de Fontes. Importância das fibras alimentares [Internet]. Brasil: Instituto AGF; 2025 [cited 2026 Mar 14]. Available from: https://institutoagf.com.br/importancia-das-fibras-alimentares [institutoagf.com.br]

Instituto Arlindo Gusmão de Fontes. Arroz e feijão [Internet]. Brasil: Instituto AGF; 2025 [cited 2026 Mar 14]. Available from: https://institutoagf.com.br/arroz-e-feijao