Insônia

Instituto Arlindo Gusmão de Fontes (IAGF) – por Rafael Bombein (CREF 016866/SP) 08/12/2025

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Segundo estudos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), 72% dos brasileiros sofrem de doenças relacionadas ao sono, entre elas, a insônia.

Costumamos achar que dormir é uma perda de tempo. De fato, a uma primeira vista, estamos deitados, inertes, sem fazer nada, durante 8 horas (e um terço de nossas vidas). Se realmente sono fosse uma perda de tempo, seria o maior erro que a evolução cometeu até então.   Mas, então para que serve o sono? Estudos ao longo dessas duas últimas décadas vem buscando elucidar essa questão. Aqui está o que sabemos até então: 

  • Restaurar o desgaste imposto pela vigília;
  • Conservar energia; 
  • Estímulo do sistema imune e reparação tecidual;
  • Consolidação das memórias adquiridas na vigília;
  • Manutenção das demais funções neurocognitivas;
  • Regulação emocional.

Manual do Sono – Guia básico sobre o sono, como dormir melhor e os transtornos do sono; academia brasileira de neurologia, departamento científico do sono; 2021; para acessar o manual do sono clique em; https://media.abneuro.org.br/media/2022/06/ebook_sono_hc.pdf

O sono saudável é essencial para a regulação do corpo, portanto, alterações em sua regularidade são determinantes e podem se refletir em diversos aspectos físicos e mentais de uma pessoa.

O professor de Neurologia e Medicina do Sono, Dr. Álan Eckeli, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, analisa o papel do sono para o funcionamento do corpo humano: “O sono é essencial para a vida, ele é tão essencial para a vida quanto a alimentação. Se nós dormirmos mal, vamos adoecer e, se nós pararmos de dormir e interrompermos esse fenômeno natural, vamos falecer. Isso demonstra a importância vital do sono para a manutenção da vida”.

Dr. Eckeli diz que a redução da qualidade, extensão ou regularidade do sono pode provocar diversos problemas: “Repercute em todo o nosso metabolismo e no nosso funcionamento mental, pode trazer prejuízos quanto à nossa memória, nossa cognição, prejuízos quanto ao nosso humor, deixando-nos mais deprimidos e predispostos a ter fadiga. Também pode alterar nosso ciclo de fome e saciedade, ou seja, aumentando a fome e reduzindo a saciedade”.

FUNCIONAMENTO DO CÉREBRO

O sono é imprescindível para a atividade cerebral, em especial por conta do líquido cefalorraquidiano, líquido que banha o cérebro. “Quando a gente adormece, ele penetra dentro do parênquima cerebral, ou seja, ele entra dentro do cérebro e tira as impurezas do metabolismo cerebral. Esse fenômeno de limpeza do nosso cérebro acontece quase que exclusivamente durante o sono”, aponta o professor Eckeli.

Segundo Dr. Eckeli dormir de forma irregular é prejudicial em diversos aspectos para a saúde humana. “A curto prazo, dormir pouco, uma, duas, três horas por noite vai trazer sintomas relacionados à sonolência, cansaço, fadiga, mau humor e redução da nossa capacidade de empatia. Essa redução aguda de sono também pode aumentar o apetite, porque altera alguns hormônios relacionados à fome e à saciedade”.

Outro problema é o aumento das chances de causar acidentes, dormir pouco compromete os estímulos e respostas psicomotoras, assim como pode afetar a memória, por vários motivos, como conta o professor Eckeli: “Quando dormimos mal, ficamos desatentos e, se não prestamos atenção, não aprendemos. O sono é essencial para a consolidação da memória, porque se você estiver se expondo pouco ao sono o processo de consolidação da memória não vai ser tão efetivo”.

INSÔNIA 

A insônia é caracterizada pela dificuldade de iniciar o sono e mantê-lo de forma contínua durante a noite, ou pelo despertar antes do horário desejado. A condição pode estar relacionada a diversos fatores, como expectativas, problemas clínicos, problemas emocionais, excitação associada a determinados eventos, entre outros. De acordo com estudos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), 72% dos brasileiros sofrem de doenças relacionadas ao sono, entre elas, a insônia.

A privação de sono pode indicar alterações na saúde física ou mental. Enquanto sintoma, a insônia pode estar associada a questões psiquiátricas, como transtornos de humor, de ansiedade ou de personalidade. Enquanto patologia, pode ocorrer em torno de três vezes por semana e persistir por três meses ou mais. De acordo com a Associação Brasileira do Sono (ABS), nos casos crônicos, ela costuma ter duração média de 3 anos, podendo estar presente entre 56% e 74% dos pacientes no decorrer do ano, e em 46% deles de forma contínua, o que pode implicar em riscos para o desenvolvimento de outras doenças.

Dra. Dalva Poyares, médica especialista pela Sociedade Americana de Medicina do Sono e Associação Brasileira do Sono, detalhou como a insônia acontece. “A insônia ocorre por uma predisposição do indivíduo a perder o sono, a ter um hiper alerta. A insônia é uma resposta anormal ao estresse, mas também pode ocorrer junto com alguns transtornos psiquiátricos. O indivíduo que tem insônia crônica tem uma chance muito maior de desenvolver hipertensão. Quando a insônia é grave, de forma que a pessoa não consiga ter o mínimo de horas de sono durante a noite, isso também pode resultar em alterações metabólicas, que podem até predispor para o aumento de peso e diabetes”, explica.

CAUSA DA INSÔNIA

A insônia está associada a vários fatores. Algumas pessoas apresentam maior tendência à insônia e quando expostas a condições de estresse, doenças ou mudança de hábitos, desenvolvem episódios de insônia. Estes episódios podem se prolongar por muito tempo, principalmente porque a pessoa tende a associar suas dificuldades de dormir a uma série de comportamentos: esforço para dormir, permanência na cama só para descansar, elaboração de pensamentos e planejamentos na hora de dormir, atenção às suas preocupações, atenção a fenômenos do ambiente, como ruídos e pessoas que estão dormindo, provocando sempre uma supervalorização destes fatos, o que realimenta a insônia.

SINTOMAS E DIAGNÓSTICO DA INSÔNIA

Conforme a 3ª edição da Classificação Internacional de Distúrbios do Sono (ICSD), o diagnóstico para o Transtorno de Insônia Crônica passa a ser definido a partir dos seguintes sintomas:

  • Dificuldade em iniciar o sono;
  • Dificuldade em manter o sono;
  • Despertar antes do desejado;
  • Resistência em ir para a cama no horário apropriado;
  • Dificuldade para dormir sem a intervenção dos pais/cuidadores.

Isso tudo acompanhado de:

  • Fadiga;
  • Déficit de atenção, concentração ou memória;
  • Prejuízo do funcionamento social, familiar, ocupacional ou acadêmico;
  • Alteração do humor/irritabilidade;
  • Sonolência diurna;
  • Alterações comportamentais (ex. hiperatividade, impulsividade, agressividade);
  • Perda de motivação;
  • Propensão para acidentes e erros;
  • Preocupação ou insatisfação com o sono.

O transtorno só pode ser diagnosticado como insônia crônica se os sintomas não forem associados a outro transtorno de sono, transtorno mental, uso de medicação/ substância ou outra condição médica.

DICA PARA COMBATER A INSÔNIA

Uma dica para combater a Insônia é fazer a Higiene do Sono; higiene do sono é o termo usado para designar um conjunto de regras e práticas que buscam preparar e treinar o organismo para que o horário de dormir seja sempre um momento agradável, prazeroso e relaxado, e proporcione maior qualidade de sono.

A seguir, reunimos alguns dos principais pontos e informações para te ajudar a inserir a higiene do sono em sua rotina diária.

MEDIDAS DE HIGIENE DO SONO

Dependendo da realidade de cada pessoa, nem todas poderão ser adotadas, por conta das necessidades individuais de trabalho e rotina.

Mas no geral, quanto mais recomendações de higiene do sono forem adotadas, mais benefícios teremos. 

Em caso de dúvidas, é válido agendar uma consulta médica para conversar sobre as melhores formas de adaptar as medidas de higiene do sono ao seu dia a dia.

Entre as principais recomendações da higiene do sono, destacamos:

PARA A PESSOA

  • Ter horários bem definidos para dormir e acordar, que devem ser seguidos mesmo em feriados e aos fins de semana;
  • Não consumir bebidas estimulantes (cafeína, chocolate, bebidas alcoólicas, chá preto, chá verde e refrigerantes) pelo menos seis horas antes de dormir;
  • Não comer alimentos muito pesados no jantar, além de evitar estimulantes como açúcares ou comidas picantes;
  • Praticar exercícios físicos com regularidade, respeitando uma janela de pelo menos quatro horas antes do horário de ir dormir;
  • Ficar longe de telas, como celulares, televisão e tablets, na cama pelo menos uma hora antes de dormir;
  • Evitar cochilos durante o dia. Se não for possível, impedir que eles se estendam por mais de 45 minutos ou que aconteçam ao final do dia.

PARA O AMBIENTE

  • Manter o quarto escuro, com luz indireta e diminuta;
  • Controlar a temperatura do quarto, dando preferência por aquelas mais amenas;
  • Usar pijamas confortáveis e adequados para o clima;
  • Manter o ambiente silencioso e tranquilo;
  • Não usar a cama ou o dormitório para outras atividades não relacionadas ao dormir, como trabalhar ou estudar.

ATENÇÃO!

Sistema Único de Saúde (SUS) – A Atenção Primária à Saúde (APS) é a porta de entrada para a população e desempenha papel fundamental na identificação precoce de sintomas que necessitem de maior atenção. O cuidado integral em saúde mental no SUS, acontece nos vários níveis da rede pública de saúde. Em caso de sinais ou sintomas, procure um profissional de saúde.